Nossas lágrimas têm a mesma cor

Nossas lágrimas têm a mesma cor

Nossas lágrimas têm a mesma cor

Hotel Everest, Beit Jala, 10/03/2017 Foi meu primeiro encontro com elas. Cruzei o oceano, vendi algumas coisas, empacotei outras e doei o resto, para que o que ficasse de mim para trás ocupasse pouco espaço. Dois dias depois, ainda confusa e sem moradia certa, me aventurei até o ponto de encontro de onde uma van nos levaria ao evento de e para mulheres israelenses e palestinas organizado pelo fórum das famílias enlutadas. Uma das senhoras comentou, frustrada, a respeito do tamanho de nossa van -esperava um ônibus, deveríamos ser muitas! Mas quando chegamos ao local do evento, um mar de mulheres usando o hijab (o véu muçulmano) encheu nossos corações de felicidade. Elas vieram! - exclamávamos felizes, e cientes da energia empenhada para que pudessem se juntar a nós. Conscientes de nosso lugar privilegiado, honramos seu esforço em romper com os padrões, arrumar alguém para cuidar das crianças, da casa, e principalmente, estar entre israelenses. Recebemos etiquetas com nossos nomes escritos em hebraico e árabe, e fones de ouvido para a tradução simultânea ágil, que alternava entre os dois idiomas. Os nossos fones eram daqueles pequenos, que se coloca no ouvido. Os delas, maiores, para serem usados sobre o hijab. O cuidado com os detalhes era amoroso e delicado. No discurso de abertura, Robi Damelin, veterana do fórum das famílias enlutadas e que perdeu o filho em um atentado, afirmou, emocionada pelo sucesso dos frutos de anos de dedicação: “chegou a hora de fazermos ouvir nossa voz. Voltem, e contem que vocês estiveram no Hotel Everest em Beit Jala, nesta sexta feira pela manhã, quando poderiam estar fazendo tantas outras coisas. E digam que vocês viram mulheres israelenses e palestinas juntas, lutando pela paz. Quero que saiamos hoje daqui cheias de esperança, percebendo alguma luz em meio a um mundo tão obscuro.” Depoimentos pessoais tecidos com emoção recontavam a história do ponto de vista de quem a viveu. Suha, a mãe do menino Mohammed Abu Khdeir, queimado vivo por extremistas judeus, levou todas às lágrimas, em sua dor ainda fresca pela perda recente. Foi ovacionada, abraçada e acolhida. Não havia diferença entre nós, e a dor pela violência era uma só. Ao fim dos depoimentos das diferentes gerações, que marcavam o passado, o presente e a esperança de futuro, o muro de isopor construído à entrada do hotel foi declarado aberto à nossa intervenção multicolor. Jovens palestinas posavam para selfies diante de um mundo que poderia ser sonhado. Mulheres de várias gerações deixaram sua marca, e finalmente, martelos em punho, foi dado o sinal para que o destruíssemos, marcando a efemeridade daquilo que é construîdo pelo homem. Ao voltarmos para a van que nos conduziria ao local estipulado para uma marcha silenciosa, a mesma senhora de antes expressou seu desejo mais profundo. “Espero que destruamos o muro de verdade ainda em meus dias”. Quando respondi que sim, faríamos isto, ela reafirmou, angustiada: “meus dias”. Homens curiosos observavam nossa movimentação coesa e alegre. Sentiam a mesma esperança que nós, não há dúvida, pois vi o brilho em seus olhos. Said, que conduzia nossa van, cuidava de uma por uma, na certeza de participar de um momento que ficará para sempre marcado. Chegamos ao local da marcha, e as primeiras reações foram de apoio. A mulher palestina que passou no carro, sentiu-se parte. Buzinas e acenos nos encorajavam. De um lado, a placa vermelha que delimitava a área em que israelenses poderiam circular, e um posto de controle destinado à população palestina, do outro, foram os marcos de nosso trajeto. Cartazes estampavam unicidade e luta. Duas jovens de um vilarejo na região de Jenin assustaram-se pela presença de três soldados armados que faziam a nossa guarda. Quando lhes expliquei que eles estavam ali por nós, acharam graça, pela distância da realidade em que vivem. A soldada dividia-se entre o exercício da função, e a curiosidade. Uma ativista comentou que os três teriam uma história para contar em casa, ao que respondi que nós também teríamos. Com a proximidade do shabat, ônibus cheios de colonos nos observavam com espanto. Alguns carros buzinavam, e pude identificar alguns palavrões que fazem parte do meu repertório do hebraico ainda restrito. Fiquei grata por não ser mais amplo neste momento. Ainda assim, tudo isto parecia menor. Sentíamo-nos calmas, envolvidas e profundamente concentradas. Já de volta a Jerusalém, o sol se pôs e veio a chuva, que por estas bandas, é sinal de bênção. O coração leve nos fez testemunhas umas das outras. A certeza de que há muito trabalho pela frente compactua com a força e coragem destas mulheres, que tomaram uma decisão. Se seu poder é imensurável, eu estou aqui para passar a mensagem adiante.

Rafaela Barkay

Rafaela Barkay, doutoranda do Programa de Estudos Judaicos e Árabes da USP está em Jerusalém para sua pesquisa de campo.

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