A COMPAIXÃO COMO ATO POLÍTICO – O CASO DOS JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES

A COMPAIXÃO COMO ATO POLÍTICO – O CASO DOS JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES

A COMPAIXÃO COMO ATO POLÍTICO – O CASO DOS JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES

O texto que segue é uma versão resumida e ligeiramente modificada de um artigo meu publicado na Revista Eletrônica Discente História.com do segundo semestre de 2016, disponível em https://www3.ufrb.edu.br/seer/index.php/historiacom/article/view/250/pdf .

INTRODUÇÃO

Justos entre as nações é um termo retirado da literatura talmúdica para, no contexto da Shoah[1], se referir a pessoas não-judias que arriscaram suas vidas para salvar judeus da morte. Apesar do Museu do Holocausto de Jerusalém (Yad Vashem) já desde sua criação em 1953 ter como missão oficial também honrar esses indivíduos, o estudo mais aprofundado sobre esses casos esbarrava na forma como tradicionalmente a Shoah era abordada. A divisão entre perpetradores, vítimas e observadores passivos é insuficiente para explicar os Justos entre as nações. Diante isso, uma opção seria relegar esses casos à categoria de exceções – o que em termos estatísticos de fato foram[2] – e concentrar-se nos comportamentos da regra. Nesse texto, entretanto, procuramos compreender as motivações dessas exceções de modo a tentar abrir caminhos para uma maior gama de possibilidades de ações políticas.

Uma definição mais precisa dos comportamentos dos Justos é extremamente complexa. Primeiramente pois os seres humanos não são monolíticos. Muitos desses indivíduos tiveram posturas ambíguas e contraditórias. Alguns optaram por salvar algumas pessoas enquanto negavam ajuda a outras. Há aqueles (não considerados tecnicamente Justos pelo Yad Vashem) que exigiram compensações em troca do salvamento. O próprio Oskar Schindler, tornado mais famoso no filme A Lista de Schindler, não foi livre de contradições. Soma-se a isso que as punições oficiais em caso de descoberta e o nível de aceitação ou reprovação social dos atos dessas pessoas variava muito de acordo com o local.

            Essas atitudes, em um contexto de democracia estabilizada poderiam ser vistas como expressão de simples altruísmo. Porém, tendo em vista que os regimes totalitários tomam para o Estado toda a dimensão do público, a saída do âmbito privado para o público de uma confrontação ou mesmo discordância com o Estado se torna automaticamente política.

OS ENTRAVES

Antes mesmos de discutir as motivações que levaram os Justos a agir, cabe refletir brevemente sobre o que bloqueava essa ações.

Um ponto inicial são os mitos gerados ou reforçados pelo partido nazista. Raoul Girardet, em “Mitos e mitologias políticas” destaca entre os grandes conjuntos mitológicos – cujas dinâmicas não são muito diferentes dos mitos sagrados – o mito da conspiração, na qual os judeus cumpriram o papel mais notório de “conspirador”.

Esses aspectos são ainda mais reforçados por dois elementos essenciais da máquina nazista. O primeiro é a propaganda, que divulgava o mito da conspiração. O outro aspecto é tecnicização, característica fundamental da indústria da morte nazista. Claudine Haroche formula a hipótese de que “a aceleração [produtiva e dos movimentos em geral] leva a falta de imaginação e de representação do outro”[3], enquanto para Zygmunt Bauman “O uso da violência é mais eficiente e menos dispendioso quando os meios são submetidos a critérios instrumentais e racionais e, assim dissociados da avaliação moral dos fins”[4]. O resgate de alguém perseguido exige que aquele que o salva inove no modo de ação e a oriente em função da finalidade (salvar pessoas), o que vai contra o ideal de eficiência técnica e foco nos meios e independência destes em relação aos fins. É preciso ainda destacar que os Justos eram infratores – da lei formal, mas em muitos dos casos também das regras e expectativas sociais.

COMPAIXÃO x PIEDADE

O estudo que originou este texto parte do princípio de que as estruturas sociais e econômicas não são, por si só, suficientes para compreender os fenômenos sociais, devendo haver também a contribuição dos sentimentos e paixões. Isso se torna especialmente relevante quando pretendemos compreender aqueles comportamentos que escapam à norma.

Assim, vale a pena deter-se sobre que tipo de sentimento estaria por trás das ações dos Justos entre as nações.

            Myriam d’Allones se preocupa em, ao definir compaixão, diferencia-la da piedade. Para ela, “a compaixão é um ‘co-sofrimento’. Quando sentimos compaixão, somos atingidos pelas angústias de outrem como se elas fossem contagiosas, ao passo que a piedade consiste em entristecer-se sem ser tocado na própria carne”[5].

Essa diferenciação é importante, pois o simples fato de sentir pena de um Outro não gera ação. Quando direcionado à alguém que não pertence àquele mundo, a pena não é um sentimento capaz de gerar uma atitude como a do salvamento. Somente a compaixão é capaz disso, pois, ao eliminar ou diminuir o sofrimento do Outro, também se alivia a própria dor. Isso pois, o “co-sofrimento” implica um certo grau de identificação entre as partes e não somente uma pena condescendente.

A questão apontada na identificação não é a existência ou não da compaixão, mas a quem essa compaixão pode se dirigir. Uma sociedade aristocrática de Antigo Regime por exemplo, não é desprovida de compaixão. Nesta sociedade, cada corporação seria capaz de sentir compaixão internamente, mas não de se revoltar e agir praticamente diante do sofrimento de um indivíduo de outra ordem (mesmo que a visão lhe pareça abjeta). Portanto, um ponto central para que a compaixão seja possível é a imaginação, a capacidade de colocar-se no lugar do outro (justamente uma das características fundamentais apontadas como ausentes em Adolf Eichmann por Hannah Arendt). Isso indica que a total apatia apresentada por grande parte da população durante o regime nazista perante a opressão dos judeus e outros grupos perseguidos não se deve necessariamente a uma perda de sensibilidade diante do horror, mas a uma incapacidade de imaginar esse oprimido como um semelhante. Não gerando identificação, a reação mais provável é a de evitar olhar para o sofrimento, que continua abjeto, mas não agir para combatê-lo.

AS MOTIVAÇÕES

Permanece, contudo, a questão central: o que levou algumas (poucas) pessoas a desenvolverem uma compaixão, diferentemente da maioria omissa?

Comecemos observando alguns exemplos: Jan Karski se infiltrou clandestinamente em guetos da Polônia e campos de concentração para testemunhar o que ocorria e colher documentos, chegando a reunir-se com autoridades nos EUA – que pouco lhe deram atenção. Karksi vinha de um meio socialmente privilegiado e recebera, já em casa, uma educação liberal e tolerante. Já Stanislawa Dawidziuk provinha de uma família proletária polonesa, tinha feito somente poucos anos de escola e dividia um apartamento de um quarto com o marido e um irmão adolescente quando lhe pediram para esconder uma moça judia por uma noite, período que se estendeu por meses. Stanislawa resistiu a ameaças e ao fato do marido tê-la abandonado por não querer correr os riscos. Soeur St.Cybard, era uma freira que já antes da guerra e também depois envolveu-se em causas sociais da sua comunidade e, durante a guerra, aceitou abrigar Josie Martin, de somente 5 anos de idade, enquanto seus pais se escondiam em outro lugar. Robert Mainstriau, um jovem belga, liderou em 1943 uma batida em um trem que carregava judeus para Auschwitz, em uma ação planejada por um jovem que já recebera uma educação familiar tolerante (o primeiro marido da sua mãe fora judeu) em uma sociedade particularmente opositora ao nazismo[6]. Vemos através desses exemplos que o perfil dessas pessoas variava muito, seja em relação à classe social, grau de instrução, premeditação ou não, ativismo prévio, ou outros aspectos.

Alguns trabalhos já foram realizados investigando as motivações desses indivíduos. Suas conclusões são essencialmente o atestado de que apontar um número restrito de razões concretas é limitante e pouco esclarecedor.

Nechama Tec é uma das autoras mais respeitadas sobre o tema. Segundo ela, a maioria dos Justos não tinha uma explicação totalmente racional ou ideológica. Se religiosos, não necessariamente o fizeram pensando na fé. Boa parte deles não eram politicamente ativos antes ou mobilizados na oposição ao nazismo. Em geral esses resgates não eram atos premeditados de pessoas comprometidas com uma causa – em muitos casos sequer conheciam antes a pessoa que salvavam. Começavam como reação a um evento específico em que o indivíduo simplesmente considerou que precisava fazer aquilo – muitas vezes a pessoa não procurou agir após raciocinar, a oportunidade lhe apareceu e optou por não ficar imóvel -, podendo (ou não) a partir disso, gerar uma rede de resgates maior. Isso explica porque, ao entrevistar Justos, tantos pesquisadores se deparavam com a surpresa dos entrevistados pelo interesse neles, pois, para eles, haviam agido normalmente, não se vendo como excepcionais.

Apesar de não encontrar nenhuma correlação estatística forte, Nechama Tec chega a seis características mais subjetivas compartilhadas pela maioria dos Justos: 1) Individualidade ou marginalidade em relação ao seu meio social; 2) Independência ou auto-confiança; 3) comprometimento com ajuda aos necessitados; 4) modéstia em relação aos seus próprios feitos; 5) não-planejamento do engajamento inicial no resgate de judeus; 6) percepção universalista dos judeus como seres humanos necessitados de assistência.

Dessas seis características, a última é o próprio disparador para a disposição a ajudar: a precondição fundamental para a compaixão é a imaginação, a noção de que pertenciam a uma mesma comunidade humana que os judeus. Já a quarta e a quinta são mais características do que motivações. A terceira é um tanto quanto evidente e precisa da sexta para ver nos judeus os “necessitados”.  As duas primeiras, no entanto, intimamente relacionadas, apontam em uma direção bastante interessante.

Tec sugere que grande parte dos resgatadores não se encaixava muito bem em seu meio social. Estar na periferia da comunidade (não necessariamente em termos econômicos) significaria estar menos afetado por suas expectativas e controles, e portanto mais livres para agir.

Tendo em vista a definição de compaixão, a relativa marginalidade desses sujeitos ainda fornece uma contribuição adicional para esse estudo. Vendo-se si mesmos como não completamente aceitos pela sociedade, estabeleciam um vínculo com os judeus, que, obviamente, também eram párias. É evidente que essa relação é assimétrica e alguém que não pertencesse aos grupos perseguidos, por mais marginalizado que fosse socialmente, jamais sofreria a mesma opressão. Contudo, para eles, essa marginalização poderia já ser suficiente para que situassem os judeus junto a si no grupo dos marginalizados, em contraste com o restante da sociedade, gerando uma relação de solidariedade e provocando o co-sofrimento característico da compaixão.

Evidentemente, este aspecto pode condicionar, mas não determina o fenômeno. Não é incoerente supor que alguns sujeitos marginalizados se voltassem justamente para a direção oposta e, sedentos por aceitação social, se tornassem os mais fervorosos nazistas. Por isso, Tec também destaca a necessidade da independência desses indivíduos. Ainda assim, a solidariedade entre marginalizados – mesmo que em níveis brutalmente diferentes – oferece uma via de entendimento interessante do comportamento social diante de situações extremamente repressivas. É bem possível que a via oposta (aderir ao nazismo pela aceitação social) fosse até mais comum. O estudo dos Justos não visa criar uma regra, mas justamente demonstrar que havia alternativas.

CONCLUSÃO

Procurei nessa breve exposição apontar em direção a um eixo de compreensão do fenômeno dos Justos entre as nações, sem com isso tentar estabelecer regras de determinação de comportamento. O que esses casos indicam é para a existência da possibilidade de criação de laços de solidariedade entre indivíduos marginalizados, mesmo que em graus diferentes e por diferentes motivos e demonstra que é possível realizar transformações sociais através da união entre os excluídos, mesmo que não categorizados sob um só mecanismo de exclusão – não sendo restrito a marginalização por classe, raça, gênero, posicionamento político, etc., mas partindo dessas exclusões para gerar uma solidariedade que as extrapolem.

Por último, as histórias dos Justos entre as nações podem ter uma finalidade educativa imensa, como exemplos de resistência, independência e humanidade.

 

[1] Termo hebraico para se referir ao Holocausto

[2] O Yad Vashem reconhece oficialmente cerca de 26 mil pessoas como Justas (<http://www.yadvashem.org/yv/en/righteous/statistics.asp#!prettyphoto). Mesmo supondo ser o número real muito maior, trata-se de uma minoria da população europeia

[3] HAROCHE,   Claudine.   Crueldade   da   personalidade  totalitária,   crueldade   da   personalidade  ilimitada.  In:  BREPOHL,  Marion. (Org.).Eichmann  em  Jerusalém  50  anos  depois. Curitiba:  Editora

UFPR, 2013 p. 114.

[4] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 122.

[5] D’ALLONES, Myriam R.  O Homem Compassional. Lisboa: Lema d’Origem, 2008, p. 50.

[6] Esses exemplos foram retirados de: GRUNWALD-SPIER, Agnes. São Paulo: Cultrix, 2011 e TEC, Nechama. A Glimmer of Light.In: RITTER, Carol; SMITH, Stephen D; STEINFELDT, Irena. (ed), The Holocaust and the Christian World. Jerusalém: Yad Vashem, 2000. p. 150-155

michel2

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