Neste Pessach, celebrar a liberdade significa suspender nosso excepcionalismo

Neste Pessach, celebrar a liberdade significa suspender nosso excepcionalismo

Neste Pessach, celebrar a liberdade significa suspender nosso excepcionalismo

Às vésperas do Pessach a comunidade judaica teme apresentar suas “fraturas expostas” devido às repercussões da palestra proferida por JM Bolsonaro na Hebraica do Rio. Da “esquerda” à “direita” se escutam acusações de racismo, homofobia e fascismo. As críticas mais brandas apontam conivência a afrontas diretas à Constituição Brasileira e aos direitos humanos. Da “direita” à “esquerda”, se expressa o embaraço pela exposição pública, o desejo de exercício da liberdade de expressão, constituição de assembleia sem coerção e com o máximo de discrição. A contabilidade de ganhos e perdas é deprimente: agressão verbal, escárnio, desunião. Esse texto tem como objetivo trazer o lado positivo destas repercussões – a oportunidade de maior, melhor e mais autêntica atuação de nossa comunidade junto aos movimentos sociais em nosso país.

Um dos aspectos mais importantes deste evento é a suspenção do “pudor extramuros”, a ideia de que todos os problemas da comunidade se resolvem internamente. Por um lado, a palestra dada no clube torna-se um evento viralizável, com o vídeo em altíssima qualidade submetido no YouTube. Por outro lado, o protesto  do lado de fora ajudou a atrair a atenção da mídia. Se muitas pessoas da comunidade se ressentem da excessiva exposição midiática, poderíamos apresentar duas questões: (1) era realmente possível planejar e executar uma palestra desta envergadura esperando total discrição? E (2) esta exposição é realmente prejudicial?

Muitos argumentam que na ausência de protestos, não haveria viralização. Mas este argumento é difícil de sustentar. Por um lado, as afirmações bombásticas realizadas foram suficientes para garantir ampla atenção de grupos extramuros, como o movimento negro. Por outro lado, existe algum pronunciamento realizado por este político que não tenha se difundido e criado polêmica quase instantânea, com ou sem protestos?

Podemos também nos questionar se esta exposição é realmente prejudicial. Para a maioria da sociedade brasileira, o que mais importa são as afirmações proferidas na palestra, e não o local da palestra. Para a maioria da população brasileira, entende-se que há judeus de todo tipo, assim como há cristãos, muçulmanos, fanhos, magros e gordos de todo tipo. E da mesma forma que pode “pegar mal” um clube judaico hospedar esse político, para várias partes da sociedade, pode “pegar bem”. Ao final das contas, apenas mostra que não deveria haver excepcionalismo judaico algum[1]. Somos feitos do mesmo barro e do mesmo sopro de todos os outros brasileiros. Talvez apenas indique que, como todos os outros povos, ter fascistas entre nós não representa nenhum tipo “ferida narcísica”. Nada nos obriga, nem a Torah, o Talmud, o Holocausto[i], o Levinas ou o Hillel a nos portar um milímetro acima ou abaixo das outras nações. Nada. E talvez isso seja extremamente libertador. Se por um lado tenhamos que admitir que haja indivíduos em nossa comunidade que não têm nenhuma conexão com a herança ética de cunho universal, também podemos nos questionar o quanto realmente colocamos em prática aquilo que julgamos inerente a nossa condição.

A exposição de nós mesmos na sociedade brasileira nos serve de espelho. Se antes podíamos postergar a discussão de como a comunidade judaica se insere na sociedade, a exposição que experimentamos nesta semana nos leva a uma reflexão e revisão de nossa autoimagem. Autoimagem esta, enfatizo novamente, importa mais a nós mesmos do que à plateia que imaginamos monitorar nossos atos. O desafio de “viver consigo mesmo”, central na ética, deve ser principalmente material de investigação do foro íntimo do que algo que é externamente imposto. Ainda assim, os eventos recentes nos levam a interromper nosso movimento e inércia. E isso não é tão ruim assim.

Acredito que esta reflexão poderá ser uma oportunidade única para, objetivamente, reavaliar como podemos contribuir de forma mais eficaz com o crescimento de nossa sociedade e com a amizade entre Brasil e Israel. Se há uma “diversidade de ideologias”, a comunidade judaica (ou pelo menos a parte com a qual eu me identifico) deve de forma inequívoca mostrar apoio à aquela “ideologia” que melhor coaduna com a história do povo judeu: a defesa dos direitos das minorias e o combate ao fascismo. Independentemente da afiliação partidária, capitalista ou socialista, religiosa ou localização geográfica, neste momento nenhuma instituição (ou pelo menos aquelas cujos valores da Ética dos Pais ainda reverberam em seu dia-a-dia) deve ser silente em relação a essa escolha. Na prática, isso poderia levar as instituições judaicas a estabelecer em suas agendas eventos abertos de discussão sobre os direitos humanos, onde a ênfase recaia sobre a responsabilidade de todos nós (judeus e não judeus) em sua proteção, e se abra as portas a debatedores quilombolas, indígenas, LGBT...

Obviamente não se pode, nem se deve, exigir nada de ninguém na festa da liberdade. O que podemos é sim incluir um pouco mais os nossos concidadãos a nossa mesa.

[1] Me refiro aqui apenas ao “excepcionalismo” de ordem moral.

[i] Essa ideia devo diretamente aos irmãos Gabriel e Daniel Douek.

charles

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