O primero Seder na Amorim: que não seja o último

O primero Seder na Amorim: que não seja o último

O primero Seder na Amorim: que não seja o último

No final dia 18 de abril, logo após o término do Pessach, realizou-se um Seder na escola municipal Amorim Lima em São Paulo. A escola é famosa por ter implementado as ideias de gestão democrática da “Escola da Ponte” e estar na ponta de lança na resistência à proposta de lei da “Escola sem Partido”. E por essa razão, foi tão importante a realização deste Seder neste local. Além de vídeos, trechos da Hagaddah do SISO, Hummus e Kneidalach, o encontro contou com uma roda de conversa, que se assemelhou a uma assembleia democrática: representantes de diversos movimentos sociais (Negros, Indígenas, LGBT, MST, Imigrantes, Refugiados, Palestinos), membros da comunidade Amorim Lima e membros da comunidade judaica falaram. As temáticas foram muitas: o retrocesso reacionário no país, a crise de refugiados, a situação das mulheres negras, e certamente, a ocupação dos territórios palestinos.

Se fizéssemos um “word cloud” de todos os discursos proferidos que fizeram referência direta aos palestinos, provavelmente teríamos como palavras em evidência: ocupação, opressão, (in)justiça, solidariedade, território, sionismo, colonialismo, racismo, europeus, judeus, lobby, Palestina, genocídio, nazismo, limpeza étnica. Esses discursos foram proferidos por um amplo espectro de vertentes: em um polo do espectro, falava-se de “genocídio” referindo-se aos palestinos, mas também aos negros. Neste mesmo polo, sionismo emergia como um projeto político colonialista e a palavra “território” não aparecia: apenas “Palestina”. No outro polo, ocupação, território apareciam.

Sionismo já não era negativo, mas conectado a um projeto político socialista. Não é necessário discorrer mais: se fizéssemos um “word cloud” de uma salada de textos de J-Street, Meretz, BDS, Jewish Voice for Peace, Paz Agora, provavelmente daria algo bem próximo. Então, o que alguém ganha em participar de um Seder como este, além de monitorar a blogsfera?

Em primeiro lugar, acredito que houve um incrível respeito entre as pessoas. Sionistas escutaram representantes de Frentes e Movimentos equiparando o sionismo a um regime opressor (sem distinguir o projeto de formação de Israel de seu governo atual). Em contrapartida, estes representantes escutaram os judeus sionistas de esquerda defenderem o direito de existência do Estado de Israel e serem abertamente pró solidariedade entre os povos (em contraste com o procedimento de anti-normalização).

Em segundo lugar, do ponto de vista da plateia (principalmente daqueles que são recém inseridos no assunto), foi possível dar espaço à dúvida. Ao final, me confidenciou um rapaz que assistiu às falas: “hoje escutei de tudo, pessoas destruindo o sionismo, e pessoas defendendo o sionismo. Onde posso ler mais a respeito?”.

Sabemos que construir um Seder como esse não é fácil. Vários grupos sociais no país e no mundo enxergam Israel simplesmente como “o opressor” e portanto não há muito espaço para dar voz a defensores do sionismo. Por outro lado, ocasiões com esta se tornam facilmente arriscadas: se a participação de judeus sionistas ocorre sem um real contraponto de ideias, a sua presença silente pode ser interpretada como um apoio tácito aos grupos antissionistas.

Se seguirmos a tendência mundial, de polarização e demonização, é possível que eventos como este ocorram com menor frequência, ou se ocorrerem, sejam pontuados de “palavras de ordem”, com pouco diálogo, ou então, condicionando a participação do outro subtraída de sua alteridade. E nesse sentido a escola municipal Amorim Lima está de parabéns: em um momento de déficit democrático em nosso país, soube dar espaço para vozes díspares, mas todas engajadas na justiça, aqui, em Israel e na Palestina.

charles

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