O desconforto de não estar em casa

O desconforto de não estar em casa

O desconforto de não estar em casa

Fui convidada para fazer uma fala na última sexta-feira no Shabat na Sinagoga do Cambuci pela comunidade Chavurá Boker. Como algumas pessoas pediram, publico o texto aqui. Vale lembrar que minha formação é em humanidades e não tive nenhuma intenção de transmitir uma visão rabínica e/ou religiosa. Agradeço, porque a noite foi muito especial.

Boa noite a todos,
Quero agradecer à Vania, ao Henrique, à Fátima e a toda a comunidade Chavurá Boker pelo convite. Confesso que, mesmo me sentindo honrada, num primeiro momento, hesitei. Sou professora, passei os últimos treze anos conversando com meus alunos na sala de aula ou no máximo com os pais deles e perguntava para mim mesma, o que eu vou falar num Cabalat Shabat? Foi então que algo nesse convite me chamou a atenção...o tema dessa noite: Sucot.

Esse ano decidi dar uma pausa no trabalho na sala de aula e viajei por 5 meses para Toronto no Canadá, tendo como um dos principais objetivos trabalhar com refugiados. Fiz parte da equipe de voluntários de um Refugee Shelter. Um abrigo que hospeda 21 refugiados nos primeiros 4 meses no novo país, dando o suporte necessário para se integrarem à sociedade canadense.

Vocês devem estar confusos, pensando: abrigo, refugiados e Sucot, cade a ligação?
A principal mitzva de Sucot é fazer as refeições na Suca, para que nós possamos sentir o desconforto de não estar em casa.
Desconforto de não estar em casa é exatamente a sensação que os refugiados sentem. Muitos deles etíopes diziam: “Aqui em Toronto é diferente, as pessoas não se olham na rua, não sorriem umas para as outras. Lá na minha cidade na Etiopia, a gente para, se cumprimenta, se abraça.” Outros, estranhavam o clima: “Que verão diferente, faz um frio no fim do dia.” Ou então, falavam: “adoro esse shelter, mas sinto falta da minha casa. Aqui compartilhamos tudo, cozinha, banheiro, quartos, comida e nem todo mundo faz a limpeza como deveria.”

O curioso é que todas essas supostas queixas terminavam com algo como: “mas essas questões são pequenas perto do que eu vivia no meu país, sai de lá pela insegurança, pela guerra civil, pela corrupção, pela pobreza, pela fome, pelo abuso contra a mulher. Posso me acostumar e viver no inverno de -20, mas não posso me acostumar e sobreviver à tensão constante sobre a minha vida e a da minha família.”

A Suca nos lembra que já estivemos nessa situação de estrangeiro no Egito e de refúgio no meio do deserto com o sonho de voltar para a casa. O que me faz ainda mais acreditar, que em 2017 ou em 5778, em meio a maior crise de refugiados desde a 2ª Guerra Mundial, nós temos a responsabilidade de olhar para essas pessoas que vivem o desconforto de não estar em casa, que se sentem estrangeiros em nossas terras e ajudá-las a fazer disso um estado temporário. Abrindo nossas portas e nossos corações para que elas tenham condições de reconstruir seus lares e de sentirem-se novamente pertencentes a um lugar. Minha experiência no albergue mostrou que nós temos esse poder, que os laços humanos podem nos trazer a sensação de casa novamente, nos permitem construir e reconstruir constantemente nossa identidade, deixando o termo refugiado para uma fase transitória entre o lugar de onde fui obrigado a sair para salvar minha vida para o lugar onde pude fixar minhas raízes, me nutrir de novas oportunidades e continuar minha história.
A Marta* , uma linda mulher que faz parte da equipe do Abrigo, é um exemplo disso. Alguém por quem tive empatia desde o começo, conversamos muito sobre muitas coisas e demorei a saber que ela mesma havia chegado ao Canadá como refugiada e se hospedado lá no albergue por alguns meses. Marta, seu marido e sua filha, deixaram seu país, principalmente, por conta da violência contra a mulher e dá ameaça de abusos constantes que sofriam. Já está há cerca de 2 anos em Toronto, trabalha, alugou um apartamento e sua filha pode ir sozinha, a pé, à Escola. Na nossa última conversa antes de eu voltar para o Brasil, falamos sobre nossas famílias. Nesse dia, Marta soube que eu era judia e me contou que a família de seu pai era judia também e que ela, Marta, guardava o Shabat e insistiu que eu deveria fazer o mesmo. Ficamos muito surpresas com a coincidência, afinal, lá no albergue não havia um judeu, os funcionários e refugiados eram cristãos e muçulmanos.

Naquela hora, entendi, a Marta conseguiu sair da Suca, do abrigo, do refúgio, e encontrar, em Toronto, o seu lugar novamente. Mas esse lugar não é de todo novo, porque parte da nossa casa está dentro de nós. Perde-se o emprego, a propriedade, os pertences, a boneca preferida, o móvel que foi da avó, mas não as memórias, não os costumes. Isso não há guerra civil que destrua.

Gostaria, então, de dedicar esse shabat a todos os refugiados, e em especial para Marta e sua família.

Que assim como a Suca, a condição de refugiado seja sempre temporária. Que nós, que estamos no conforto de nossas casas, possamos recebê-los com respeito, acolhimento, amor para que os refugiados consigam fazer dessas novas terras onde são estrangeiros, também, suas próprias casas.

Existem inúmeras fontes na tradição judaica que falam sobre a nossa responsabilidade com essas pessoas, cito aqui uma delas, Levíticos 19:33 :

“Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem. O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Dus de vocês.”

Sucot Sameach ve Shabat Shalom!

*O nome Marta é fictício para preservar sua real identidade.

Melanie Grun

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