Notas sobre traição, tradição e transmissão em Judas, de Amós Oz

Notas sobre traição, tradição e transmissão em Judas, de Amós Oz

Notas sobre traição, tradição e transmissão em Judas, de Amós Oz

I.

No texto intitulado Carta aos Judeus, o rabino brasileiro Nilton Bonder explica que são quatro os patriarcas do povo judeu e que cada um reflete uma distinta tensão na relação com a tradição:

1. Chacham: é a origem desse pacto (Abraão). Seriam os ortodoxos - envolvidos. 2. Tam: é a geração passiva e cega (Isac). Seriam os conservadores – superficialmente envolvidos. 3. She ló iodeach: o que não sabe perguntar: é a geração que se afasta e vive longe das moradas dos pais (Jacó). Seriam os reformistas – distantes. 4. Rashá: é a geração que abandona a casa dos pais, mas reconsidera e volta (José). Seriam os seculares – assimilados.

Chama a atenção a geração de Jacó, geração dos reformistas (na qual se enquadra o próprio rabino), geração que, segundo a definição, não saberia perguntar. Será? Judas, de Amós Oz, não por acaso termina, na página 350, com a seguinte passagem:

Shmuel continuou ali em pé, no meio da rua deserta. Baixou do ombro o kitbag, depositou-o no asfalto empoeirado. Com cuidado, pôs o casaco sobre o kitbag e também a bengala e o chapéu. E perguntou a si mesmo.

II.

Se o jovem Shmuel precisou de centenas de páginas para levar a termo sua jornada de autorreflexão, Nilton Bonder sempre soube interrogar a si mesmo e a tradição. Em Cartas aos Judeus, o rabino defende que o judaísmo ou a identidade judaica se faz por vínculo com o coletivo e não por crença. Segundo essa perspectiva, os judeus não seriam um grupo étnico no sentido genético, sendo judeu não quem tem mãe judia, mas quem estabelece um vínculo de responsabilidade para com o outro, para com o coletivo.

De acordo com Bonder, o pacto de Abraão não é teológico ou ontológico e não estabelece doutrina. Antes, o pacto é o compromisso com algo futuro, no sentido do vínculo, da ética e da transmissão. Daí porque, de Abrão aos rabinos modernos, há ênfase no coletivo humano e pouco interesse, seja marginal ou apócrifo, no sobrenatural e na própria ideia de divindade. “O divino nos é interdito, sua forma e seu nome nos são vedados, e há censura ao asceta, ao eremita e ao fanático”. Portanto, para o rabino e sua perspectiva radical (aquela que vai, literalmente, à raiz do sentido), a identidade judaica não tem sua origem em teologias dogmáticas, mas em rituais e observâncias, que são instrumentos de sustentação desse exercício coletivo e não instrumentos de culto, de cedo e de fanatismo.

Também Amós Oz, em Os Judeus e as Palavras, belíssimo ensaio escrito com sua filha, Fania Oz-Salzberger, compartilha essa mesma premissa. Dizem eles:

A continuidade judaica sempre se articulou em palavras proferidas ou escritas, num sempre expansível labirinto de interpretações, debates e discordâncias, e numa interação humana única. Na sinagoga, na escola e, a cima de tudo, em casa, esta interação sempre envolveu duas ou três gerações em conversas profundas.

A nossa não é uma linhagem de sangue, mas uma linhagem de texto (...). Tal continuidade tem sido recentemente questionada: não houve coisa alguma de ‘nação judaica’, nos dizem, antes de os ideólogos modernos a conceberem. Bem, nós discordamos. Não porque sejamos nacionalistas. Um dos propósitos desse livro é reclamar nossa ancestralidade, mas outro é explicar que tipo de ancestralidade, na nossa opinião, é digno de esforço de ser reclamado.

Não estamos falando de pedras, clãs ou cromossomos. Não é preciso ser arqueólogo, antropólogo ou geneticista para traçar e substanciar um continuum judaico. Não é preciso ser judeu. Ou, quanto a isso, ser antissemita. Basta ser um leitor.

Para Amós Oz e Fania Oz-Salzberguer, a continuidade judaica digna de ser reclamada seria aquela basicamente textual, já que a nacionalidade judaica histórica, étnica ou genética é um relato de fratura e de calamidade. “Tanto sangue, tanto de conversos como de inimigos, de emblemáticos khazares e cossacos, pode estar correndo em nossas veias”, especulam pai e filha. Apesar disso, existe uma linhagem judaica, mas essa linhagem, afirmam, é feita de palavras.

Nesse sentido, de acordo com a visões de Amós Oz, Fania Oz-Salzberger e Nilton Bonder, sentir-se responsável pelo coletivo e ser hospitaleiro ao outro, ao estrangeiro, é um valor primordial, entendendo que esse coletivo nunca é nem pode ser hegemônico, mas múltiplo, plural, atento às diferenças e ao diferente, não-idêntico, não-igual. Daí que ser parte do coletivo, isto é, ser parte de uma tradição de práticas, ritos e palavras, é poder ser transgressor a essa mesma tradição, é poder ser até mesmo um traidor, mas desde que essa traição ou transgressão não implique a perda da responsabilidade para com o coletivo.

Na tradição judaica, rabínica, talmúdica, o coletivo é feito de dissenso (e não simplesmente de consenso), de controvérsias, de tensões, de conflitos, de dialética. E é justamente aí que reside sua dimensão política. Querer suprimir os conflitos, as tensões e as distâncias, jogando-as para debaixo do tapete da tradição é, nesse sentido, excluir-se do espaço comunitário e dissolver-se na egolatria e no culto ao indivíduo, no “Egito da personificação”, como diria o rabino. Isso sim seria “trair” o coletivo, no sentido negativo em que costumeiramente compreendemos a traição.

III.

Não é por acaso que tanto em Judas, último e monumental romance de Amós Oz, quanto em A Alma Imoral –Tradição e Traição através dos Tempos, importante livro do rabino progressista Nilton Bonder, o que está em jogo é a transvaloração do sentido negativo e costumeiro de traição.

Para Oz e Bonder, sem traição não poderia haver tradição, entendendo a traição como transgressão, subversão, desierarquização, desvio, deslocamento, exercício do pensamento crítico e dissenso. A traição, portanto, ao contrário da condenação desastrosa que, a partir da história fundadora de Judas Iscariotes, o traidor, recaiu e tem recaído há dois mil anos sobre os judeus, poderia ser lida e revista nessas duas obras como um valor.

No romance de Amós Oz, Judas Iscariotes, aquele que foi “o primeiro e o último dos cristãos”, o único dos apóstolos a acreditar na divindade de Jesus e a sacrificar a própria vida, e Shaltiel Abravanel, que discordou até o fim da política militarista, identitária e nacionalista implementada por David Ben Gurion, quando da formação de um Estado Nacional (sendo por isso silenciado e banido), foram condenados, para todo o sempre, por terem sido traidores, quando, na verdade, eles só traíram porque propuseram outra forma de vínculo com o coletivo.

Nesse continuum, nessa linhagem de palavras e traição que Judas estabelece, o protagonista Shmuel, cujo avô, Antek, também fora assassinado por ser considerado um traidor (era agente duplo e falsificador de documentos), será o próximo a trair, porque, simplesmente, ao se colocar questões, ao se perguntar, ao escapar de um modelo patriarcal e falocêntrico de política e de cultura, trai o “culto ao militarismo”, a “embriaguez da vitória”, o “ufanismo nacional” (pag.332).

Como está claro ao longo de todo o romance, Shmuel é um outro tipo de homem, um pouco atrapalhado, até mesmo infantil, asmático, piedoso, em nada viril ou tipicamente corajoso. Shmuel duvida, hesita, interroga, pondera. Está longe do fanatismo, do sionismo ultranacionalista, da crença cega no militarismo e na identidade como único e superior valor.

Shmuel é o avesso de Alexander Guideon, o professor de Teoria Política protagonista de A Caixa Preta, especializado em terrorismo, porém em tudo cruel, frio, racional e calculista. Shmuel é o avesso de um mundo organizado em torno da hierarquia, do pragmatismo, do cálculo, da racionalidade cínica, do fanatismo organizado e militarizado. Shmuel, nesse sentido, está ao lado da galeria de personagens femininas de Amós Oz, como Ilana Sommo, de A Caixa Preta, Hana Gonen, de Meu Michel, Noa, de Não diga Noite, para citar apenas algumas. Assim como todos os traidores, não seria descabido dizer que, do ponto de vista da cultura, Shmuel é mulher.

Mas é em Pantera no Porão, romance de 1999, que a questão da traição aparece, talvez pela primeira vez, na obra de Amós Oz, quando, em 1947, durante o Mandato Britânico, um garoto de doze anos, membro imaginário da resistência judaica clandestina, faz amizade com um sargento inglês. O garoto, que pensa estar extraindo do inimigo importantes segredos militares, é, entretanto, acusado de traição por seus companheiros e, décadas mais tarde, se torna um escritor. Como se costuma dizer de um tradutor, o escritor é um traidor.

IV.

A obra de Amós Oz tem sido uma permanente batalha contra o fanatismo (nome aliás de um ensaio seu de 2004, recentemente reeditado no Brasil com o título Como curar um Fanático?), mas chamá-lo de humanista ou pacifista parece muito pouco, insuficiente. Afinal, bem sabemos para onde o credo antropocêntrico, com sua escolha daquilo que deve ou não ser considerado humano, aliado ao amor santificado e universal, já nos levou, sempre em nome do “conserto do mundo”, das guerras santas e mundiais à destruição do planeta, passando por toda forma de terror.

Na contramão de toda forma de fanatismo e de um humanismo prepotente, Amós Oz talvez esteja, antes de tudo, ao lado do feminismo, entendendo seu feminismo menos como um “ismo”, um movimento em que haveria um suposto consenso, do que como uma perspectiva feminina que se opõe a todo e qualquer fundamentalismo, machismo e sionismo de vertente ultranacionalista.

A traição, nesse sentido cultural, seria um valor feminino, mesmo que protagonizado por homens, pois não se trata de gênero ou de genética, mas de posição e posicionamento no interior de práticas, crenças e discursos. Segundo A Alma Imoral, a traição seria a dimensão transgressora da alma (entendendo a alma como parte do corpo) em contraposição ao corpo moral, o qual sempre visa sua autopreservação. A traição seria aquilo que, entre o cumprir e o transgredir, faz a vida mesma evoluir, frutificar, diferir.

Para o rabino Nilton Bonder, a verdadeira alma é transgressora e sua dimensão imoral, que muitas vezes ameaça contundentemente o próprio corpo, é o lugar onde cada um de nós briga com seu Deus-destino – e, dessa contenda, se inventa.

V.

Amós Oz, tantas e tantas vezes considerado um traidor em Israel, sabe que saber perguntar a si mesmo, se interrogar, não obedecer cegamente a nenhum imperativo (político, militar, religioso), é o que garante, na tradição judaica, a relação entre o pessoal e o coletivo. Shmuel, ao ser capaz de perguntar a si mesmo, exerce um contraponto a todo fanatismo, já que o fanático, segundo o escritor, sendo “um ponto de exclamação ambulante”, é aquele que “já tem todas as respostas prontas e não está interessado em nenhuma pergunta ”.

E, sem perguntas, não há compromisso com o futuro, com os que virão depois de nós, pois não há transmissão. É justamente aí que reside o caráter decisivamente político da literatura.

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ilana

3 Comentários

  1. Bernardo Sorj
    30 de março de 2016 para 00:25
    Resposta

    Belo texto. Parabéns!

  2. Ruth Goldberg
    3 de abril de 2016 para 09:04
    Resposta

    Ótimo texto. Obrigada!

  3. Ricardo Besen
    5 de abril de 2016 para 22:18
    Resposta

    Ilana, muito bom o texto.

    Se entendermos, a partir destas visões, o conceito de crise como a dissolução do coletivo e concordarmos que os vínculos são feitos de deveres, eu acabo caindo no… Brasil.

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