Um novo olhar para Purim - Parte 1: Purim para crianças

Um novo olhar para Purim - Parte 1: Purim para crianças

Um novo olhar para Purim – Parte 1: Purim para crianças

Purim está chegando e, com a festa, um monte de atividades fofinhas para levar às crianças. Sem olhar a agenda de eventos, posso chutar que vai ter pecinha sobre a história de Ester na sinagoga, festival de fantasias no clube e oficina de máscaras na escola. A novidade deste ano, como não podia deixar de ser, é virtual. Tem um vídeo bem produzido (em português!) em que duas crianças explicam o básico de Purim para outras crianças.

O problema, como gosta de dizer o meu colega colunista do Pinat Brasil, Michel Gherman, é que “à educação judaica, não basta ser fofinho”, ao que eu acrescento: “ela precisa ser transformadora.” Aqui, faço um desafio: participe das atividades de Purim dos seus filhos e se pergunte em que medida as crianças estão sendo transformadas. Não me leve a mal: quando bem feitas, todas as atividades que eu descrevi acima têm potencial para serem transformadoras. Oficinas de máscaras que incentivem as crianças a pensar em quais são as situações em que elas se apresentam “mascaradas”, sem ser quem elas realmente são; desfiles de fantasias que ajudem os alunos a desenvolverem a empatia e a se colocarem no lugar do outro; pecinhas sobre a história de Ester que não ignorem os diversos aspectos complexos desta história. Vamos falar um pouco mais sobre isso….

Pra começar, se você vai encenar a meguilá, não deixe de lado os últimos capítulos. São neles que ficam os aspectos normalmente considerados mais problemáticos desta história e que, por isso mesmo, são escondidos debaixo do tapete na maioria das vezes.

Depois que Ester intervém junto ao rei Achashverosh, para cancelar o decreto de Haman, e não obtém sucesso - o rei argumenta que nem ele pode cancelar uma ordem real -, “o rei permitiu aos judeus de todas as cidades que se organizassem e lutassem por suas vidas; e para destruir, massacrar e exterminar as forças do povo ou da província que lhes atacassem, incluindo mulheres e crianças, e saquear suas posses. (…) E em cada cidade que o decreto real chegou, houve luz e alegria, júbilo e honra entre os judeus”.[1]

É mais ou menos por aí que a história que nós contamos a nossas crianças termina, e que o problema começa. Nos dois capítulos seguintes, é detalhado como, em resposta ao ataque planejado por Haman e, com a autorização do rei, os judeus mataram mais de 75.000 pessoas, incluindo os descendentes de Haman. Há duas linhas clássicas de argumentação em defesa desta atitude da comunidade judaica da Persia: (1) tendo em vista que Haman tinha planejado exterminar todos os judeus do reino, a postura judaica foi apenas de “legítima defesa” e a responsabilidade sobre as vítimas deve recair sobre aqueles que planejaram ou tomaram parte na tentativa de exterminar os judeus; e (2) dado o mandamento bíblico de exterminar Amalek[2] e a associação clássica de Haman com aquele povo[3], o assassinato de seus descendentes se enquadra na observância de um mandamento bíblico.

Contra o primeiro argumento, salta aos olhos a evidência de que a infra-estrutura do estado persa estava, agora que Mordechai tinha se tornado braço-direito do rei, ao lado dos judeus e que, desta forma, é difícil creditar a morte de 75.000 pessoas à tese da legítima defesa. Parece haver, ao contrário, uma inversão poética na qual os papéis de perseguidos e perseguidores são trocados sem que o ódio ao outro seja removido. De qualquer forma, esta seria uma excelente oportunidade de lidar, de forma pedagógica, com estes temas ao invés de ignorá-los totalmente.

A segunda justificativa, a comparação com Amalek, é ainda mais problemática e justifica ainda mais atenção ao tema na sala de aula. Ao longo dos séculos, a denominação “Amalek” foi aplicada a grupos com os quais os judeus tinham desavenças, incluindo armênios e cristãos.[4] Mais recentemente, há aqueles que associem o povo palestino (ou os árabes em geral) a Amalek, justificando atos como o massacre cometido por Baruch Goldstein que, durante o Purim de 1994, matou 29 muçulmanos rezando na Tumba dos Patriarcas em Hebron. Considero difícil aceitar a argumentação de que estes temas não devam ser discutidos criticamente.

Eu pergunto freqüentemente a pessoas que trabalham em educação judaica por que os dois capítulos finais da meguilá não são, na maioria dos casos, ensinados às nossas crianças quando elas aprendem sobre Purim. A resposta que escuto normalmente é sobre a adequação pedagógica do conteúdo à maturidade da criança. Veja bem: meu filho não tinha ainda quatro anos e mal tinha começado a entender que era judeu quando alguém achou que era adequado ensiná-lo sobre o plano mirabolante de um ministro estrangeiro para matar todos os judeus. Isso pode... mas ensinar que os judeus, uma vez que tinham alcançado o poder, se lançaram em uma campanha de vingança que deixou um rastro de dezenas de milhares de mortes, aí não pode!

A verdade é que há muito pouco de preocupação pedagógica autêntica na omissão deste massacre. O que há, na verdade, é uma postura ideológica que alimenta o senso judaico de vitimização através das narrativas dos nossos feriados. Quando nós somos os perseguidos ou as vítimas, pode contar, não importando a idade do aluno; quando somos nós que agimos mal, perseguindo ou matando outros, é melhor ter cuidado para não traumatizar ninguém…

Não há quase nada que seja adequado ensinar a crianças pequenas sobre a história da meguilá. Para elas, deveríamos focar nas mensagens lúdicas e positivas que podemos atingir através das máscaras e fantasias (veja as sugestões no começo do artigo), do mishloach manot (envio de comida a amigos, e que fenomenal se forem amigos que vivem na rua!) e dos matanot la’evionim (doações aos necessitados).

Conforme elas forem crescendo e conseguindo entender todos os elementos da meguilá, podemos ir contando a história de Purim, incluindo o antisemitismo de Haman e o massacre cometido por vingança pelos judeus. Outros temas que podemos incluir, conforme a maturidade dos alunos permitir, são: discriminação sexual, violência doméstica, tráfico sexual, identidade judaica na diáspora, consumo excessivo de álcool, relação com as instâncias de poder, sedução, genocídio, pena de morte, punição coletiva, e outros.

 

Na segunda parte deste artigo, tratarei do que a história de Purim tem a ensinar para adultos sobre o momento político que o país vive.

 

[1] Ester 8:11,16

[2] Veja, por exemplo, Deuteronômio 25:19.

[3] A relação entre Haman e Amalek é estabelecida pelo fato de que o pai de Haman é chamada de Agaguita (Ester 3:1) e Agag era um rei de Amalek que Saul deixou vivo (Samuel I 15:8). De forma indireta, a relação é insinuada pelas leituras da Torá e da Haftará do Shabat anterior a Purim (chamado Shabat Zachor), que fazem referência a Amalek.

[4] Uma excelente análise deste tópico, bem como da violência judaica relacionada à celebração de Purim, pode ser encontrada em Horowitz, Elliott (2006). Reckless Rites: Purim and the Legacy of Jewish Violence. Princeton University Press.

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rogerio

Rogério Z. Cukierman é formado em Administração de Empresas pela EAESP da Fundação Getúlio Vargas, com mestrados em Economia pela Universidade de Tel Aviv, em Estudos Judaicos pelo Hebrew Union College de Los Angeles e em Educação Judaica pelo Hebrew College em Boston. Estudou na Escola Rabínica do Hebrew College, líder entre as escola rabínicas pluralistas, de onde recebeu ordenação rabínica em 2011. Sua vida profissional judaica foca em instituições pluralistas, tendo trabalhado como Diretor Executivo do Hillel da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, IL, e como Diretor da Área Judaica do Colégio I. L. Peretz em São Paulo. Atualmente, coordena as áreas de Cultura Judaica do Adolecá em São Paulo e da Escola Eliezer Max no Rio de Janeiro.

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17 Comentários

  1. 21 de março de 2016 para 14:28
    Resposta

    Muito bom, obrigado pela reflexão.

  2. Charles Kirschbaum
    21 de março de 2016 para 15:29
    Resposta

    Achei o texto muito ousado e ao mesmo tempo me levou a inquietações. Me parece que nem sempre a cultura do “fofinho” prevaleceu sobre a reflexão da “violência-como-vingança”. Por exemplo, ainda é comum em muitas famílias lamentar quando os anjos celebraram o massacre dos soldados egípcios no mar Vermelho (e não acho que seja um ato apologético perfunctório). Essa inquietação me leva à indagação: será que o fenômeno apontado no artigo é uma tendência atual (pós-holocausto), ou sempre existiu no judaísmo?

  3. 21 de março de 2016 para 17:09
    Resposta

    Ótimo texto, Rogério! Fundamental lançarmos outros olhares à forma como as tradições vão se sedimentando nas instituições e na cultura comunitária. Refletir sobre os aspectos que não favorecem uma visão heroica do povo pode nos ajudar muito a contribuir para tratar das angústias contemporâneas.

  4. Daniel Chanchinski
    21 de março de 2016 para 20:56
    Resposta

    Vejo que teu senso auto-crítico judaico com relação à história da meguilá é bem maior que o da maior parte dos judeus. Eu, de um modo geral, sou a favor de um olhar mais crítico a nossos textos e tradições, mas será que realmente você está julgando de forma correta o texto da meguilá e seu contexto? Ou será que você tem uma opinião formada e a impõe ao texto?
    Em relação ao texto, quando você se refere ao contra ataque judaico aos supostos aliados de Haman, os julga como não sendo um ato de defesa. Será que realmente esta é a mensagem descrita no texto? Mais uma vez eu me pergunto: Será que o texto é a base para tua conclusão, ou a tua opinião anterior foi que te fez chegar nela?
    Acredito que você esteja errado em tua interpretação. Está escrito que a intensão de Ester e de Mordechai eram a de cancelar o decreto de Haman e quando se viram impossibilitados de cancelar tal decreto, escreveram aos judeus que teriam o direito de se defender.
    Acredito que daqui, vemos claramente que não havia a intensão de uma chacina aos inimigos dos judeus.
    Não está escrito em nenhum lugar no texto da meguilá que os judeus teriam o direito de atacar ou sair matando seus supostos inimigos.
    Ademais, você supõe que ninguém sairia a um ataque aos judeus porque o rei estaria apoiando os judeus. Baseado em que parte da meguilá você diz isso?
    Eu vejo no texto da meguilá que anteriormente tiveram dois ministros que planejaram o assassinato do rei. Eu vejo que tal rei vivia trancafiado em seu castelo com medo de algum ato contra ele, é até com um decreto de morte a quem se atrevesse a entrar em parte dos aposentos reais sem ter sido convocado (incluindo a própria rainha). Daí entendo que haviam bastantes opositores a tal governador! E posso tentar concluir daí que tendo um decreto de morte a judeus que não poderia ser revogado, e sendo os judeus parte do governo atual, um grande número de opositores se empenharam numa guerra contra os judeus e foram mortos em batalha. Tudo isso está escrito na meguilá, se você quer ser fiel ao texto.
    Ou seja, se você quer ter alguma conclusão baseada, sugiro que você não contradiga o próprio texto, e sim siga suas conclusões. Se falamos dos últimos capítulos, você sem dúvida deve ter notado que foram selados dias de festas e comemorações pela vitória. Com tuas conclusões, ou você julga que não deveríamos comemorar estes dias devido a um problema ético moral contido nestas batalhas, em contradição à conclusão da meguilá. Ou você sugere uma comemoração mesmo que este seja um problema ético moral, o que vem em contradição a tuas próprias práticas visto que entendo que você comemora Purim.
    Mas como eu também tenho que ser fiel ao texto… Existem dois pontos na meguilá que podem ser o “gatilho” de teu pensamento. O primeiro, é que realmente o texto contém que o ataque a inimigos dos judeus incluíam as mulheres e crianças. E é difícil lidar com isso. O segundo é que realmente Ester pede ao rei mais um dia para acabar com os inimigos em Shushan. E neste ponto não se está falando de uma defesa, senão realmente um ataque àqueles que não atacaram os judeus no dia anterior, mas simplesmente eram do “partido” do Haman. Mas aqui vemos realmente a proporção, foram mortas 300 pessoas, muita gente, mas não como numa batalha onde morrem 75000. Esta é uma grande pergunta: por que Ester pediu para matar seus opositores que não a haviam atacado anteriormente? A resposta para isso é realmente mais difícil e creio que seria anacrônico julgar aos nossos olhos com a realidade onde vivemos esse ataque de judeus contra seus inimigos, por isso não vou tentar justificá-los, somente vou lembrar que este tal “partido” criou uma lei de extermínio a todos os judeus do reino (que provavelmente eram todos os judeus do mundo). E para uma ilustração, imagine se pudéssemos voltar no tempo e convencêssemos um grupo a matar todos do partido nazista antes de 1933? Será que seríamos culpados por matar algumas centenas de pessoas, ou seríamos aqueles que pouparam a vida de 6000000? Fixe-se no fato de que não saberíamos nunca que realmente poupamos a vida de milhões.
    Note que em nenhum momento eu critiquei o propósito inicial do artigo que é gerar uma discussão mais profunda em temas éticos judaicos, ou gerar atividades com maior conteúdo para as crianças. Não tenho nada contra “atividades fofinhas”, mas concordo que não se pode parar por aí e principalmente voltar e refazer tais atividades ano após ano desde o jardim de infância até o ensino médio.
    Discordei da interpretação feita a Meguilá, mas concordo plenamente com a mensagem de debate, discussão e aprofundamento judaico.

    • Rogerio Z. Cukierman
      22 de março de 2016 para 15:41
      Resposta

      Daniel, por engano eu postei a resposta o teu comentário no lugar errado. Veja abaixo da minha resposta.

  5. Esther Dzialowski Amarante
    22 de março de 2016 para 02:45
    Resposta

    Daniel e Rogério: gostei muito da leitura de vocês dois. Independente de detalhes das argumantações que posso concordar ou discordar, achei muito importante ler a reflexão inteligente que se seguiu a colocação sobre questões relacionadas a educação das crianças e da nossa também. Obrigada pela oportunidade de pensar sobre isso e buscar minhas respostas. Tempo de reflexão e ampliação da consciência…

  6. Raul Gottlieb
    22 de março de 2016 para 09:47
    Resposta

    Caro Rogério.

    Muito bem colocadas as tuas posições. Obrigado pelo excelente texto, que provocou a excelente resposta do Daniel Chanchinski.

    Realmente promover atividades anódinas com cenário judaico não avança o judaísmo e não contribui para a nossa cultura. É como pretender adquirir cidadania japonesa comendo sushi.

    A contribuição do judaísmo para a humanidade é a proposta de uma religião e de uma cultura que retrata o ser humano, inclusive os mais sublimes, como eles são e não como eles deveriam ser. Para o judaísmo a perfeição é um atributo exclusivamente divino.

    Um abraço, Raul

    • Rogerio Z. Cukierman
      22 de março de 2016 para 17:29
      Resposta

      Raul, a segunda parte do artigo já está no ar, em que eu trato mais diretamente do fato de que Mordechai não é um ser humano perfeito….

  7. Rogerio Z. Cukierman
    22 de março de 2016 para 15:01
    Resposta

    Caro Daniel,

    Obrigado pelo seu comentário e pela leitura atenta do meu texto. Acho que você, realmente aponta para questões que podem ter ficado mal explicadas no artigo – como você indica ao final do seu comentário, meu objetivo era fazer uma crítica à forma superficial como a educação judaica trata de Purim e, por isso, não quis entrar nos pormenores da interpretação. Desta forma, te agradeço também por me permitir detalhar um pouco mais de onde vem esta leitura sobre o massacre no final da meguilá.

    Antes de mais nada, no entanto, acho importante destacar que sim, se trata de uma interpretação do texto, não de uma leitura absoluta que não reconheça a possibilidade de múltiplas (e contraditórias) leituras. Acredito na Torá (entendida de forma ampla, não apenas os cinco livros) como um documento vivo, que dialoga com as gerações judaicas e deixa impressões diferentes em cada alma que toca. É desta forma que as leituras de Nachmanides, Rashi e de Ibn Ezra (só para ficar entre os comentaristas clássicos) apresentam grandes diferenças. Sem querer comparar-me a estes grandes mestres, minha leitura da Torá, assim como as deles, reflete tanto o texto quanto a mim mesmo. Os italianos dizem “Traduttore, Traditore” (tradutor, traidor), reconhecendo que, no processo de leitura, sempre filtramos o conteúdo através das nossas próprias lentes. Por outro lado, você aponta para uma preocupação extremamente importante: trata-se de um diálogo entre o intérprete e o texto, não de um monólogo em que se escuta apenas a voz da interpretação. É importante sempre se perguntar se o texto realmente diz o que eu estou lendo!

    Cabe ainda notar que há, sim, uma premissa implícita de interpretação na minha leitura. Apesar de considerar o texto da Torá sagrado, tanto em sua origem quanto no relacionamento que o povo judeu tem lhe dedicado ao longo dos séculos, eu não o considero inquestionável. Não tenho compromisso em argumentar que o comportamento de Mordechai ou Ester (ou de Avraham, Moshé ou David em outros contextos) sejam moralmente justificáveis. Para mim, isto é parte do que estar em “diálogo com o texto” implica e esta atitude me permite aprender tanto dos exemplos positivos de nossos antepassados, quanto de suas atitudes mais problemáticas.

    Vamos agora ao texto… Alguns versos da meguilá que, eu acho, sustentam a visão de que a morte das mais de 75.000 pessoas no final do texto não foram apenas em legítima defesa:

    —————- (Ester 8:13)
    פַּתְשֶׁגֶן הַכְּתָב לְהִנָּתֵן דָּת בְּכָל־מְדִינָה וּמְדִינָה גָּלוּי לְכָל־הָעַמִּים וְלִהְיוֹת הַיְּהוּדִיִּים עֲתוּדִים לַיּוֹם הַזֶּה לְהִנָּקֵם מֵאֹיְבֵיהֶם׃
    O texto do documento foi entregue como lei em todos os estados, publicamente apresentado a todos os povos, para que os judeus estivessem prontos para, naquele dia, se vingarem dos seus inimigos.
    —————-

    O texto da meguilá não deixa muito espaço para dúvida de que a intenção daquele que ditou o documento real foi propiciar uma oportunidade de vingança, não de defesa. Posso até compreender, como você argumentou na analogia com a Alemanha, de onde vem o desejo de vingança que dá origem a esta ordem de Mordechai, mas não posso deixar de chamá-lo pelo que é.

    —————- (Ester 9:2-5)
    נִקְהֲלוּ הַיְּהוּדִים בְּעָרֵיהֶם בְּכָל־מְדִינוֹת הַמֶּלֶךְ אֳחַשְׁוֵרוֹשׁ לִשְׁלֹחַ יָד בִּמְבַקְשֵׁי רָעָתָם וְאִישׁ לֹא־עָמַד לִפְנֵיהֶם כִּי־נָפַל פַּחְדָּם עַל־כָּל־הָעַמִּים׃ וְכָל־שָׂרֵי הַמְּדִינוֹת וְהָאֲחַשְׁדַּרְפְּנִים וְהַפַּחוֹת וְעֹשֵׂי הַמְּלָאכָה אֲשֶׁר לַמֶּלֶךְ מְנַשְּׂאִים אֶת־הַיְּהוּדִים כִּי־נָפַל פַּחַד־מָרְדֳּכַי עֲלֵיהֶם׃ כִּי־גָדוֹל מָרְדֳּכַי בְּבֵית הַמֶּלֶךְ וְשָׁמְעוֹ הוֹלֵךְ בְּכָל־הַמְּדִינוֹת כִּי־הָאִישׁ מָרְדֳּכַי הוֹלֵךְ וְגָדוֹל׃ וַיַּכּוּ הַיְּהוּדִים בְּכָל־אֹיְבֵיהֶם מַכַּת־חֶרֶב וְהֶרֶג וְאַבְדָן וַיַּעֲשׂוּ בְשֹׂנְאֵיהֶם כִּרְצוֹנָם׃

    Os judeus se reuniram nas cidades de todas as províncias do rei Achashverosh para punir aqueles que buscavam o seu mal e ninguém lhes impediu, pois todos lhes tinham medo. E todos os oficiais das províncias – os governadores persas, os governadores e os capatazes do rei – mostravam deferência aos judeus, pois tinham medo de Mordechai. Pois Mordechai era poderoso no palácio do rei e sua fama se espalhava por todas as províncias e o homem Mordechai se tornava cada vez mais poderoso. E os judeus atacaram todos seus inimigos com a espada e os mataram e destruíram e fizeram com seus inimigos o que queriam.
    —————-

    Estes versos tampouco deixam muito espaço para dúvida de que os judeus não agiam em legítima defesa. O poder de Mordechai, ao contrário do que você argumentou no seu texto que “um grande número de opositores se empenharam numa guerra contra os judeus e foram mortos em batalha” mas o que o texto diz é que todos tinham medo dos judeus e de Mordechai. Se Achashverosh foi apresentado como um líder fraco, Mordechai claramente aparece com alguém em controle do que se passa nas províncias do rei.

    É verdade que o texto limita o ataque àqueles que queriam mal aos judeus, mas a iniciativa de ataque parte dos judeus. Há duas expressões críticas nesta minha tradução/leitura que, de acordo com o dicionário Even Shoshan, têm significado muito parecido: לִשְׁלֹחַ יָד e וַיַּכּוּ – nos dois casos, os verbos indicam agressividade. Não há, para nenhuma destas palavras, conotação de resposta a um ataque anterior.

    Há, no entanto, outro versículo que aponta em outra direção:

    —————- (Ester 9:16)
    וּשְׁאָר הַיְּהוּדִים אֲשֶׁר בִּמְדִינוֹת הַמֶּלֶךְ נִקְהֲלוּ וְעָמֹד עַל־נַפְשָׁם וְנוֹחַ מֵאֹיְבֵיהֶם וְהָרֹג בְּשֹׂנְאֵיהֶם חֲמִשָּׁה וְשִׁבְעִים אָלֶף וּבַבִּזָּה לֹא שָׁלְחוּ אֶת־יָדָם׃
    O resto dos judeus, aqueles que estavam nas províncias do rei, se reuniram e se defenderam, vencendo seus inimigos e matando 75.000 daqueles que lhes odiavam, mas não tocaram no espólio.
    —————-

    O que sustenta a sua tese de defesa, não de ataque.

    Eu acredito que o texto apresenta evidências nas duas direções, provavelmente refletindo uma realidade diversa, tanto nas atitudes dos judeus quanto nas dos simpatizantes de Haman. Decidi apresentar a leitura da matança como ataque por dois motivos: (1) o texto indica que a motivação de Mordechai, ao emitir a ordem do rei, foi vingança, não defesa; e (2) em geral, a leitura do massacre como vingança é perspectiva mais negligenciada na educação judaica, que era o foco do artigo.

    Há ainda aqueles que, apesar de terem uma leitura próxima à minha, não condenam a matança da mesma forma que eu faço. Yoram Hazony[1], por exemplo, compara a resposta de Mordechai aos ensinamentos de Maquiavel e conclui que, se não tivesse exterminado seus opositores, Mordechai teria dado a chance de que eles atacassem os judeus no futuro e encorajaria outros a fazer o mesmo. Pessoalmente, eu prefiro tirar minhas lições de política e moral de outras fontes….

    A leitura crítica do texto, você tem razão, traz complicações éticas para a comemoração de Purim. Dizem que o Prof. Yeshayahu Leibowitz Z”L passava o 14 de Adar em Jerusalém e o 15 de Adar em outra parte de Israel para não precisar comemorar a data; Purim tampouco é meu feriado favorito, mas não tenho a opção de mudar de cidade para evitá-lo. Aprendi com um professor que estimo tremendamente, o rabino Ebn Leader, que três dos nossos feriados deste semestre (da primavera no calendário israelense) marcam episódios em que, envolvidos nas nossas conquistas, estão grandes desperdícios de vidas humanas, tanto judias quando dos nossos adversários. Em memória destas vítimas e para me lembrar de que estas conquistas não vieram em “badejas de prata”, eu jejuo em Taanit Ester, Taanit Bechorot (mesmo não sendo primogênito) e em Yom haZikaron. Esta é a prática espiritual que me permite atingir algum equilíbrio e comemorar Purim.

    Novamente, obrigado pela oportunidade do diálogo. Chag Purim Sameach!

    [1] Hazony, Yoram (1995). The Dawn: Political Teachings of the Book of Esther. Shalem Press: Jerusalem. Veja especialmente o capítulo 20, ps. 204-210. O livro foi re-editado em 2016 com o título “God and Politics in Esther”.

  8. Debora Sitnik
    22 de março de 2016 para 20:24
    Resposta

    Obrigada pelas reflexões. Eu, na verdade, sou uma judia extremamente crítica de muitas, muitas passagens da Torá e dos Chaguim. E esta discussão me fez ficar com ainda menos vontade de praticar o judaísmo.
    É bem mais fácil amenizar as passagens do que realmente pensar nelas. Porque parando para pensar muito, é bem difícil aceitar que “Elo´ká Tzevaot” (o D’us dos Exércitos) seja realmente alguém que preza pela paz.
    Aceitar esses massacres religiosamente justificáveis é legitimar outros – e o que é o Jihad, hoje, que explodiu Bruxelas, além de gente que mata porque alegam, que o mesmo D’us assim lhes ordena? E eu poderia apostar que não vai demorar muito até pessoas vestirem capuzes pontudos e saírem matando todos os muçulmanos que encontrarem. Alegando atuo-defesa.
    Quem escreve a história (e, portanto, diz quem teve razão) é o vencedor da batalha. Os demais, são exterminados ou calam, e em algum momento da história, se diluem e suas memórias são varridas para a poeira estelar. Nós estamos sobrevivendo há milênios, outros sumiram. E, depois de ler sobre esse massacre de 75.000 persas, inclusive crianças, é difícil não dar alguma razão a quem nos achava a chaga da humanidade. Não dá para revisar a história e omitir de vez as partes sujas? Então talvez não devamos mesmo comemorar estas datas… Excluir do calendário talvez fizesse algumas pessoas pensarem sobre os exemplos que somos quando o sapato aperta o calo alheio.

    • Rogerio Z. Cukierman
      22 de março de 2016 para 20:56
      Resposta

      Debora, obrigado pelo seu comentário. Eu compartilho a tua dor em ler estes textos difíceis.

      Um filósofo francês chamado Paul Ricoeur falava em dois momentos de desenvolvimento religioso. O primeiro deles, que ele chamou de “Primeira Ingenuidade” acontece quando lemos nossos textos sagrados de forma literal e é estilhaçado quando começamos a estudar as ferramentas de análise crítica da religião. Há, na seqüência, um momento de crise, no qual podemos nos tornar céticos e tentar analisar qualquer iniciativa religiosa através de uma lente racional. Acontece que as religiões não são, por definição, racionais. Elas endereçam o que há de mais instintivo nas nossas almas, uma necessidade de conhecer além da compreensão das nossas mentes, enxergar além do que vêem os nossos olhos. Tentar aplicar somente a razão à experiência religiosa leva, na maioria dos casos, a uma crise espiritual. Então, pouco a pouco, começamos a sair desta crise e a enxergar a possibilidade de uma relação com a tradição religiosa que vai além da sua leitura literal, onde há espaço para a dúvida, na qual a crítica é bem vinda. Neste segundo momento, podemos ter certeza religiosa de coisas com as quais nossos intelectos não estão, necessariamente, de acordo. Ricoeur chamou esta fase de “Segunda Ingenuidade”.

      Há um conforto que vem de saber que nossos textos sagrados ensinam apenas o bem, que Deus é bom e que nossos heróis religiosos não cometiam erros.

      Na seqüência, há um choque espiritual ao descobrir que o mundo está quebrado, que nossos antepassados eram humanos e falhavam, que há ensinamentos terríveis na Torá e que mesmo Deus cometeu sua fatia de erros.

      E, acredite, há uma nova forma de conforto em descobrir as formas fenomenais como nossa tradição tem respondido a estes desafios; em saber que os rabinos de dois mil anos atrás também ficavam incomodados com vários destes textos; em perceber que o Judaísmo criou espaço para acomodar a dúvida autêntica, não apenas a pergunta retórica.

      O problema, como eu comecei a argumentar no texto, é que nossa educação judaica não revela este espaço para a dúvida autêntica. Educamos nossas crianças, jovens e adultos como se a Primeira Ingenuidade fosse tudo que houvesse. Calamos os descontentes e fingimos que nossa tradição de dois mil anos tem a superficialidade de um espelho d’água.

      Um midrash nos conta que Avraham desenvolveu a primeira ideia de monoteísmo quando olhou para o mundo e se deu conta que as respostas religiosas que lhe tinham dado não descreviam o mundo como ele o vivia. Então, ele ousou seguir a sua verdade interna e ficar na margem do rio onde ninguém mais estava. Avraham, este iconoclasta, é quem começou a viagem maravilhosa de descobertas que chamamos Judaísmo. Não deixe a leitura tradicional calar tua relação com a tua tradição – escute a tua voz interna e procure a jornada que vai te colocar exatamente no lugar em que você quer estar.

      Acredite em mim: há muito no Judaísmo pra te apoiar nesta jornada de auto-descoberta. Sem impor e respeitando os teus termos.

      • 23 de março de 2016 para 09:03
        Resposta

        Que linda resposta à Debora… Que vale ser lida por muitas pessoas!!! Obrigada!

  9. Daniel Chanchinski
    23 de março de 2016 para 07:51
    Resposta

    Caro Rogério,

    Também quero te agradecer por me proporcionar uma oportunidade de aprofundamento no estudo da Meguilat Ester, e pelo alto nível da discussão. Neste período de “binarização” (como diria nosso amigo Michel Gherman), encontrar alguém que pense diferente e mesmo assim podermos manter um nível alto de respeito durante uma discussão, é raro. Seria “fácil” para algum dos lados desmerecer ou invalidar o outro com rótulos, não tendo assim que lidar com seus argumentos – e o que é pior, deixaríamos a oportunidade de aprender um com o outro.

    De qualquer forma me desculpe, mas discordo de vários pontos em tua interpretação. Antes de tocar no ponto principal da discussão, que é a interpretação fiel do texto, gostaria de acrescentar num ponto em que toquei anteriormente, mas que não me aprofundei, o anacronismos.

    Julgar eticamente personagens do passado levando em consideração os parâmetros éticos atuais é como tentar julgar uma cultura sob regras de outra cultura. Por exemplo, julgar um francês que entra em um ambiente e declara um grande “bon jour” como uma pessoa que quer ser o centro das atenções, ou um inglês que fala baixo ou se refere em terceira pessoa e não fala muito como alguém frio, ou um grego que quebra o prato depois da refeição, ou um árabe que arrota a mesa – seriam julgamentos não necessariamente corretos, porque estes são aspectos culturais que diferem em cada lugar. Muito além destes julgamentos seria um julgamento de alguém na Pérsia antiga sob uma perspectiva atual. Contudo, isso não tem que nos privar de fazer todas as perguntas que nos incomoda, mas daí a declarar que este ou aquele personagem não tenha um comportamento ético, como conclusão, tem que ter um maior embasamento. Deve-se levar em consideração ao máximo as regras sociais daquela época e lugar, e as alternativas daqueles que estão no cenário (como os líderes daquele tempo agiam) – principalmente se a mensagem que emana do texto não indica esta falta de ética. Em tua argumentação não vi este cuidado – talvez ele exista e não tenha sido exposto, mas sem estes, chamar tal conduta de um personagem de não ético pode ser até interpretado como arrogância (como quem diz eu sei o que é uma conduta ética e posso dizer quem foi ou não foi ético). Em resumo, questionar sempre é válido, mas a meu ver conclusões necessitam um embasamento maior no código de regras éticas da época determinada e/ou no próprio texto estudado. Não quero tornar este o tema da discussão, portanto pararei por aqui.

    Com relação ao texto que você trouxe como prova de que os judeus atacaram e não foi somente um ato de defesa, acredito ser um caso clássico de “Traduttore, Traditore” como você mesmo citou. Ou seja, traduzir certas palavras é como trocá-las pelo significado da palavra usada na nova língua. Vou começar pelo que eu vejo como teu principal argumento que vem do seguinte passuk:
    “אִישׁ לֹא־עָמַד לִפְנֵיהֶם כִּי־נָפַל פַּחְדָּם עַל־כָּל־הָעַמִּים”,
    o que você traduziu como “ninguém lhes impediu, pois todos lhes tinham medo”, eu traduziria “ninguém conseguiu lhes impedir, pois todos tinham medo” – os inimigos sairam em batalha, mas o medo da batalha fez com que eles não conseguissem impedir os judeus e a guarda real de ganhar a tal batalha. Esse medo, é o medo citado em Devarim 20:8
    “מִי-הָאִישׁ הַיָּרֵא וְרַךְ הַלֵּבָב, יֵלֵךְ וְיָשֹׁב לְבֵיתוֹ; וְלֹא יִמַּס אֶת-לְבַב אֶחָיו, כִּלְבָבוֹ.”

    Obviamente o ambiente e a sensação geral era de medo, e a maioria da população temia o poder de Achashverosh e de Mordechai, mas aqueles que esperaram a oportunidade da data marcada por Haman para a batalha contra os judeus e aproveitar para tomar o poder, sentiram o medo somente no momento da batalha e isso os fez perder.

    Mas voltando ao passuk da Meguilat Ester, se compararmos ele com outra apariçao deste termo em outro lugar no Tanach, em Tehilim 105:38
    “שָׂמַח מִצְרַיִם בְּצֵאתָם כִּי-נָפַל פַּחְדָּם עֲלֵיהֶם”
    que diz sobre a saída do Egito, e como os egípcios ficaram felizes com a saída dos judeus “pois todos lhes tinham medo”… Será que você diria lá também que o medo evitou que o exército de Par’ó três dias depois perseguisse os judeus até encurralá-los no mar vermelho? A expressão é quase a mesma, o medo existia – mas todos sabemos que o exército sim correu para atacar o judeus. Ou será que achamos que o compositor deste Tehilim não sabia disto?
    Ou em outro termo muito parecido que aparece em Yehoshua 21:42
    “וַיָּנַח יְהוָה לָהֶם מִסָּבִיב, כְּכֹל אֲשֶׁר-נִשְׁבַּע לַאֲבוֹתָם; וְלֹא-עָמַד אִישׁ בִּפְנֵיהֶם, מִכָּל-אֹיְבֵיהֶם–אֵת כָּל-אֹיְבֵיהֶם, נָתַן יְהוָה בְּיָדָם”

    Onde como conclusão do livro, está escrito que ninguém se opôs à conquista de Yehoshua, porque D`us deu os inimigos em suas mãos. Você diria que todos se renderam sem batalha? Ou seria como traduzi o termo anteriormente em Meguilat Ester, que ninguém conseguiu se opor? Eles guerrearam contra Yehoshua, mas por ajuda de D`us não conseguiram se opor. Mais uma vez o termo é o mesmo – inclusive eu diria que a Meguilat Ester está fazendo uma alusão a este passuk de Yehoshua (mas vamos deixar esta análise para outra oportunidade).
    Um outr termo que recebe um significado central em tua argumentação e que eu queria abranger também, é a tradução da palavra נקם, que se traduz como “se vingar”, e se deixamos de levar em conta as diversas vezes no Tanach onde esta palavra é usada em paralelo à palavra משפט que significa justiça.
    לעשות נקמה בגוים…לעשות משפט בהם (תהילים קמ”ט)
    אִם-שַׁנּוֹתִי בְּרַק חַרְבִּי, וְתֹאחֵז בְּמִשְׁפָּט יָדִי, אָשִׁיב נָקָם לְצָרָי, וְלִמְשַׂנְאַי אֲשַׁלֵּם. (דברים לב)
    וַיִּלְבַּשׁ צְדָקָה כַּשִּׁרְיָן, וְכוֹבַע יְשׁוּעָה בְּרֹאשׁוֹ; וַיִּלְבַּשׁ בִּגְדֵי נָקָם, תִּלְבֹּשֶׁת, וַיַּעַט כַּמְעִיל, קִנְאָה.
    Ou seja, às vezes, a palavra נקם não significa exatamente uma vingança no sentido usado no hebraico moderno, e sim um tipo de revanche feita por justiça e merecimento.

    Se seguimos esta interpretação que proponho, não precisamos explicar o que você apontou como:
    “Há, no entanto, outro versículo que aponta em outra direção:
    —————- (Ester 9:16)
    וּשְׁאָר הַיְּהוּדִים אֲשֶׁר בִּמְדִינוֹת הַמֶּלֶךְ נִקְהֲלוּ וְעָמֹד עַל־נַפְשָׁם וְנוֹחַ מֵאֹיְבֵיהֶם וְהָרֹג בְּשֹׂנְאֵיהֶם חֲמִשָּׁה וְשִׁבְעִים אָלֶף וּבַבִּזָּה לֹא שָׁלְחוּ אֶת־יָדָם׃
    O resto dos judeus, aqueles que estavam nas províncias do rei, se reuniram e se defenderam, vencendo seus inimigos e matando 75.000 daqueles que lhes odiavam, mas não tocaram no espólio.
    —————-
    O que sustenta a sua tese de defesa, não de ataque.”

    Pois é exatamente a mesma direção de todos os outros psukim.

    Mordechai e os judeus da Pérsia se reuniram para um ato de auto defesa, um grupo grande de opositores abriram uma batalha contra os judeus e o governo e com isso foram mortos 75000.
    Rogério, nós dois concordamos plenamente que uma investida de judeus que estão no governo que viesse a matar milhares de pessoas (sem ser um ato de auto defesa), seria algo realmente inaceitavel eticamente – não vou negar, pode ser que este é um dos motivos que me leva a interpretar do modo que eu interpreto. Acredito piamente nesta interpretação não somente por isso e pelos argumentos que citei anteriormente, mas principalmente porque senão teríamos um problema com o julgamento ético, não somente de Mordechai ou de um ou outro personagens bíblicos em determinadas histórias, mas também com o julgamento ético objetivo do Tanach. A conclusão da Meguilá é que precisamos fixar “dias de banquetes e alegria” por esta vitória. E muito pior que isso é julgar que todo o povo judeu, durante todas as gerações comemorou Purim, que de acordo com tua interpretação seria uma festividade anti ética!! E o fato do Prof. Yeshayahu Leibowitz Z”L não querer comemorar Purim, ao meu ver não ameniza este julgamento (infeizmente, isso me sugere talvez certa arrogância de quem julga todos os que comemoram e comemoraram Purim no passado). Prefiro a visão de sua irmã (uma simples professora de Tanach), Nechama Leibowitz Z”L, em cujas interpretações me baseio (estudo com alunos seus – Rav Yaakov Medan, Rav Ramy Yanai e outros).

    Mas para não terminar com um argumento “sentimental” e sim um argumento mais “intelectualizado”… Achashverosh é identificado normalmente como o imperador arquimênida Xerxes da Pérsia. Se esta identificação é correta, sugiro que o grande banquete no começo da Meguilá seja a grande preparação para as Guerras Médicas (contra a Grécia) onde lá foi organizado o maior exército jamais composto na história. O que trouxe líderes de todas as províncias que compunham seu império e seus líderes de exército a cidade capital para tal organização militar. Essa organização militar durou provavelmente centenas de dias, que seria estratégicamente acompanhado por grandes banquetes festivos para levantar a moral dos exércitos e uni-los em torno de um grande líder – que demonstrava ter o poder (demonstrado por todos os seu bens expostos nesta ocasião). O problema foi que o grande exército persa sofreu graves derrotas por causa de graves erros na organização, as principais nas batalhas de Salamina e de Maratona. Fazendo assim a popularidade do Imperador cair e ele sofrer várias tentativas de revoltas até seu assassinato no final por um de seus generais Artabanus. Por este aspecto histórico, uma destas revoltas que tiveram contra o Rei Achashverosh (Imperador Xerxes), seria a revolta marcada por Hama contra os judeus – e a defesa a este ataque teve como consequencia a morte em batalha de 75000 pessoas e uma pausa na oposição ao governo, o que tornou Mordechai mais influente e o governo mais estavel. Esta seria uma teoria tentando localizar a história da Meguilá num período histórico conhecido. Óbviamente que o banquete no começo da Meguilá é ironizado com uma caricaturização da situação de um Imperador megalomaníaco que quer se tornar o “rei do mundo” e acaba tendo seus planos frustrados… Mas isso é um ponto a ser discutido em outra oportunidade.

    Purim Sameach e que esta tenha sido uma oportunidade de aprofundamento a nós e a todos que acompanharam nosso pequeno debate.

    • Rogerio Z. Cukierman
      23 de março de 2016 para 12:56
      Resposta

      Daniel,

      Eu tinha me proposto a fechar a discussão sem responder teus últimos comentários e cheguei a publicar algo nesta direção, mas fiquei me sentindo incompleto sem endereçar alguns dos pontos que você colocou. Vou tentar, de qualquer forma, não levantar novos pontos de polêmica…

      Quanto ao ponto de julgar criticamente as pessoas no seu contexto histórico, acho que há uma linha muito tênue que nós dois tentamos caminhar: fazer da Torá um documento vivo, com o qual temos um diálogo constante implica tentar aprender dela lições de ética e moral, independentemente de ser um documento com milênios de história (ou talvez até por causa disto). Por outro lado, como você diz, não faz sentido julgar situações de um passado tão longínquo com os valores contemporâneos (note, por sinal, que os antigos Rabinos não tinham sempre esta preocupação e “retrojetavam” sua realidade ao contexto bíblico em toda oportunidade que tinham….) Eu tento, sim, ter respeito pelo contexto histórico do texto, mas também me relaciono com ele a partir de valores judaicos eternos, como o respeito à vida. Há situações em que, na minha opinião, podemos fazer julgamento de nossos personagens bíblicos – mas, como disse na minha primeira resposta, acho que partimos de premissas diferentes com relação a nossa abordagem à Torá que nos levam a conclusões distintas.

      Com relação às traduções, me baseei não apenas no dicionário Even Shoshan mas também no BDB (Brown-Driver-Briggs), que é considerado o dicionário de referência no mundo acadêmico para traduções do Tanach (inclusive, incorporando a abordagem de “concordância” que você usou muito bem na sua análise). Não vou entrar aqui no mérito técnico das análises das traduções – novamente, acredito que nossas duas abordagens refletem diferentes premissas na relação com o texto, premissas que são ambas legitimadas pelas técnicas usadas tradicionalmente na interpretação de textos judaicos. Sem querer colocar nenhum de nós dois na mesma categoria deles, Rashi, Ramban e Ibn Ezra chegaram freqüentemente a leituras muito diferentes dos mesmos textos. Acredito que estamos na mesma situação: duas leituras muito diferentes da meguilá, mas ambas possíveis.

      O contexto histórico da história de Ester não é meu campo de expertise e, portanto, não poderia comentar. Em linhas gerais, no entanto, não busco linhas de validação mútua entre a Torá e a História como disciplina acadêmica. O conhecimento científico e o conhecimento religioso são ambos importantes na minha vida, mas endereçam buscas distintas pela verdade (talvez você queira ler a resposta que dei à Debora, pois trata de um assunto similar).

      Vou parar por aqui. Acho que nós dois podemos reconhecer a seriedade e o engajamento que temos na abordagem destes textos e, ao mesmo tempo, dizer que nossos argumentos indicam que algumas de nossas premissas são tão diferentes que o debate deve focar nestas diferenças. É o que os americanos chamam de “agreeing to disagree“, ou “concordar em discordar” sem tentar chegar a um consenso. De outra forma, teríamos um diálogo em que as partes não falam o mesmo idioma. Tenho certeza que a turma do Pinat Brasil ficará feliz em organizar para que possamos ter esta conversa no fórum adequado (full disclaimer: eu faço parte do “board” do blog)

      Um comentário final: Pirkei Avot 3:2 ensina que quando duas pessoas estudam Torá, a Shechiná vive entre elas. Espero que, apesar da distância, nossa experiência de estudo da Meguilá tenha trazido a Presença Divina para nossa companhia. Ken Yehi Ratzon.

      • Daniel Chanchinski
        26 de março de 2016 para 16:29
        Resposta

        Apesar de ainda termos bastante detalhes a serem debatidos, acredito que nossos principais argumentos já foram expostos. Agora cabe ao leitor a função de definir o que tomar consigo.

  10. Esther Dzialowski Amarante
    23 de março de 2016 para 10:39
    Resposta

    Uau!! Que aula bacana que vocês estão dando para nós, os leitores que tomamos o tempo para ler e aprender. Continuo entusiasmada e agradecida pela seriedade de suas argumentações baseadas em citações e estudo profundo. Kol Hacavod!!! Esse Purim vai ser diferente para mim.

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