Esquerda e antissemitismo

Esquerda e antissemitismo

Esquerda e antissemitismo

*Texto escrito em resposta a publicação de Thomas de Toledo no site Portal Vermelho(http://nao.usem.xyz/86e9)

A “esquerda” se refere a um dos divisores da sociedade contemporânea: aquele que separa as pessoas com maior ou menor sensibilidade em relação a temas de justiça social. Alguns acreditam que a esquerda agrupa por definição as pessoas do “bem” assim como por definição a direita seria a turma do “mal”. Considero que se trata de um pensamento de tipo religioso, e errado.

No mundo real existem não só pessoas como grupos políticos que embora sejam a favor de maior justiça distributiva aderem em outras áreas a posturas autoritárias, antissemitas, homofóbicas, racistas, machistas, poluidoras, etc. Em função de uma adesão a grupos de esquerda política muitos de nós calamos frente a totalitarismo stalinista, aos crimes do Maoismo ou ao tratamento dado aos homossexuais e a os opositores em Cuba, para dar alguns poucos exemplos.

E esquecemos que do “outro lado” muitos liberais se bateram contra regimes autoritários e lutaram pelos direitos humanos nas suas sociedades e no mundo. A existência de pessoas associadas a grupos políticos de esquerda com posturas antissemitas não é um simples produto de desvios individuais. Existe sim, em particular na esquerda latino-americana, tendências autoritárias que convivem mal com o pluralismo democrático, que proclamam um nacionalismo “anti-imperialista” que chega a ser xenofóbico, pois não aceita o cosmopolitismo cultural e o individualismo competitivo da sociedade contemporânea. Todos eles funcionam como vetores que escorregam facilmente no antissemitismo.

As caraterísticas sócio históricas dos judeus, um grupo diaspórico com uma cultura cosmopolita impulsionados por um ímpeto de sobrevivência, levaram um número grande deles a ocuparem posições de destaque na sociedade (inclusive nas comunistas). E como consequência, entraram em choque com o nacionalismo xenofóbico que alimentam teorias conspiratórias, presentes tanto na esquerda como na direita. Colocado cruamente, o antissemitismo é um componente “natural” tanto da esquerda como da direita com tendências autoritárias, com dificuldades de conviver com o diferente.

No caso de grupos de esquerda que aderem a um anti-imperialismo que explica, novamente em forma religiosa os males do mundo pela ação do “diabo” estadunidense, eles defendem uma postura contra Israel que só instrumentaliza o problema palestino para seus próprios fins, misturando uma causa justa, a luta dos palestinos contra a ocupação, com uma outra causa, a demonização e eliminação do Estado de Israel, que é uma forma de antissemitismo.

Obviamente o desafio é continuar sendo de esquerda ao mesmo tempo que se combate estas tendências dentro da “esquerda realmente existente”. O problema é complexo, pois muitas pessoas bem-intencionadas combatem os “excessos” antissemitas, mas se identificam com os pressupostos que os geram. Mas somente um debate aberto, que enfrente as dificuldades da “tradição” pode avançar na construção de uma esquerda democrática. Como bem sabemos, para nós, judeus humanistas, enfrentar a tradição é uma tarefa difícil...

carlos

15 Comentários

  1. Rita Voss
    15 de junho de 2016 para 20:54
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    Bernardo, em linhas gerais concordo com o seu texto. Tenho pensado justamente sobre a esquerda, principalmente na universidade. É verdade sim que existe uma esquerda autoritária, a meu ver, com resquícios de algo tão odioso como o stalinismo. Sinceramente, quando vejo jovens estudantes dizendo que são maoístas não sei se me sento e choro ou se dou risada. Mas acho mais prudente prestar atenção a essas excrescências enunciadoras de intolerâncias, regressos, perigos para a liberdade e, principalmente, para a plena vivência solidária que, na verdade, para além do mero distributivismo, embala nossos sonhos socialistas. No entanto, penso que comparar uma mentalidade autoritária aos liberais é complicado não é muito esclarecedor. Porque você, na verdade está falando de extremismo de esquerda. Não devemos esquecer que o nacional-socialismo foi um extremismo de direita. Stalin e Hitler são duas metades que se complementam em seus totalitarismos. Sem esquecer que o Holocausto aconteceu sob a égide do sistema nazista. O liberalismo e o socialismo de que falamos são de outra ordem, não estão nos extremos. Quanto ao antissemitismo, penso que não tem uma ideologia propriamente dita. O judeu como representação social estereotipada se adequa às conveniências mais diversas que se aproximam de extremos, sejam eles religiosos, sejam eles políticos.

  2. 15 de junho de 2016 para 22:19
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    É tudo verdade. Mas há ângulos diferentes que eu gostaria de ver ressaltados. O 1o é que o artigo esclarece a sinonimia entre “sionista” e “judeu”. Isso é bom porque tira a dúvida a respeito do argumento da esquerda “somos anti-sionistas mas não somos anti-semitas”. Balela pura.

    O 2o é que fomos nós sionistas colocados aparentemente em boa companhia. Não vou reclamar.

    O 3o é a virtude da liberdade de imprensa e expressão. É muito proveitoso que artigos como esse sejam publicados e lidos, para sabermos de onde vem o racismo, e como os racistas pensam. Fiquei até um pouco decepcionado porque aparentemente o PCdoB tirou o artigo do site, e o autor fechou seu blog. A censura e mesmo a auto-censura aumentam os riscos e perigos, via ignorância.

    • 17 de junho de 2016 para 00:53
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      Não achei essa explicação da sinonímia. Sou judeu e anti-sionista; como devo entendê-la?

  3. Raul Gottlieb
    16 de junho de 2016 para 11:38
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    Caro Bernardo.

    Muito oportuno e adequado o teu texto. Realmente a publicação do Thomas de Toledo merecia uma resposta.

    Contudo, tenho alguns reparos que me parecem importantes:

    As aspas em torno de esquerda logo na abertura do texto me parecem inconsequentes. A única esquerda com experiência política real (colocada em prática) é esta esquerda antissemita e autoritária que separa as pessoas entre os que teriam maior sensibilidade social (eles) e os outros. Ou seja, entre os certos e os errados.

    Desde o partido nacional socialista dos trabalhadores alemães, aos partidos comunistas russo, chinês, cubano e norte coreano, passando pelo PSUV da Venezuela e demais manifestações assemelhadas, todos os partidos de esquerda que tomaram o poder dividiram a população entre cidadãos que concordam com a linha e as ações do partido e que, portanto, podem tudo e os demais só podem o que a arbitrariedade do partido e seu caudilho (sempre há um caudilho nas experiências da esquerda) permitirem.

    Invariavelmente, quem adere ao que você chama de justiça distributiva institui um governo almeja o totalitarismo. Alguns consguem implantá-lo e outros ficam no meio do caminho, mas todos tentam.

    Sendo que a tal “justiça distributiva” não é justiça coisa alguma. A justiça é cega e não deve ceder nem às necessidades dos mais pobres em ao eventual arroubo dos poderosos. Isto está na Torá e, desde que foi formulado, o judaísmo jamais reformou este conceito.

    “Tsdek tsedek tirdof” pode ser lido assim:

    A justiça perseguirás. – diz a Torá.
    Qual justiça? – perguntam os homens.
    A justiça justiça (sem adjetivos). – responde a Torá.

    O que se chama de “justiça distributiva” ou “justiça social” é, na verdade, proteção aos fragilizados, igualmente fundamental dentro do judaísmo e nos estados democráticos, mas que não se confunde com justiça. É sempre importante definir os termos para não criar a confusão atrás da qual se escondem os que almejam controlar a sociedade.

    Não vamos nos esquecer que em termos pragmáticos quem efetivamente conseguiu diminuir a pobreza, distribuir a riqueza e combater a injustiça foi sempre um sistema de direita. Desde o final da escravidão na Inglaterra (que impôs a liberdade aos escravos do Brasil, fora outras parte do mundo), impulsionada pela ânsia moral da igreja protestante, até a riqueza dos Estados Unidos onde os pobres são muitas vezes mais abastados que os pobres no Brasil. E talvez tudo isto tenha começado com o ex-príncipe egípcio Moisés, educado no palácio do Faraó – um direitista clássico pelos parâmetros de hoje.

    A única esquerda efetivamente democrática que eu conheço é a querida experiência kibutsiana. Que fracassou pela impossibilidade econômica de manutenção do modelo. Infelizmente a sustentabilidade faz parte de qualquer projeto político. Sem ela, tudo fica no nível utópico. Muito bonito, mas irrealizável e, como tal, incapaz de produzir efeitos práticos.

    Finalmente: existe algum judaísmo não humanista? Veja que, no que diz respeito à valorização da vida humana, até os judeus fundamentalistas religiosos mantém um abismo intransponível entre eles e suas contrapartes no Islã. Assim que, me parece que todo judeu consciente de sua herança cultural é humanista e a distinção que você sugere ao final do teu texto é desprovida de sentido. Além do que é simples mudar a tradição: basta que haja aderência a um novo costume por uma parcela do grupo. O que é muito complexo (e odioso) é obrigar aos demais a aderir a tua nova proposta de tradição. Esta tentativa de aderência é a essência da esquerda (com e sem aspas) quando assume o poder.

    Um abraço, Raul

      • Raul Gottlieb
        16 de junho de 2016 para 15:09
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        Oh não, Charles! A tsedaká é a obrigação da sociedade cuidar dos fragilizados e impedir que eles tenham sua dignidade arranhada. Isto não se compara um sistema distributivo. Além do que justiça é apenas e somente justiça. Uma pergunta para ilustrar o que eu estou dizendo: uma pessoa rica com três casas tem que dar uma delas para outra pessoa rica com uma casa “apenas”? Pela lógica da “justiça distributiva” deveria fazer isto. Claro que a tsedaká é um dos pilares do judaísmo, mas ela não é “justiça distributiva”. Abraço. Raul

        • Charles Kirschbaum
          16 de junho de 2016 para 15:41
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          Você chegou a ler o texto da Hebrew University que colei acima? è bem interessante! Shalom – Charles

          • Raul Gottlieb
            16 de junho de 2016 para 17:13

            Li sim, Charles. Não no detalhe, mas deu para entender e apreciar. Um belo trabalho. Com exceção da confusão entre o título que fala de “justiça distributiva” e o texto fala da proteção à dignidade dos fragilizados.

            São coisas bem diferentes, a meu ver. Claro que rótulos sempre (ou quase) enganam. Mas veja que o judaísmo não condena a desigualdade, enquanto que os proponentes modernos de justiça distributiva (ou social) enxergam na desigualdade a origem de todos os males do mundo (ou quase todos, vá lá). E tentam saná-los através da distribuição das riquezas existentes.

            Eles enxergam a pobreza como uma linha relativa (o caso um do texto), mas o judaísmo coloca a pobreza como sendo uma medida objetiva (o caso dois do texto).

            De qualquer forma, penso que deva forçosamente haver uma distinção bem clara entre a justiça – que deve ser cega e proteção aos fragilizados – que deve manter os dois olhos bem abertos. Concorda com isto?

            Abraço, Raul

        • Charles Kirschbaum
          18 de junho de 2016 para 11:32
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          Raul, colo aqui mais um comentário, porque aparentemente chegamos no limite de thread permitido pelo blog. Eu acho que no judaísmo coexiste a tolerância à desigualdade e mecanismos de redução à desigualdade. Isso fica claro com as restrições à alienação de terras na época pré-diaspórica. Na filosofia contemporânea, o filósofo que ao meu ver melhor soube reconciliar a ideia de “meritocracia” com “justiça distributiva” foi na minha opinião John Rawls – ele percebeu que a simples imposição da igualdade levaria ao colapso econômico (como bem documentado em várias economias de centralização estatal), mas a falta de mecanismos de redistribuição levaria a desordens sociais muito problemáticas.
          Curiosamente, achei dentro de um site do Beit Chabad a discussão de como a filosofia foi encontrar na Bíblia a inspiração para tentar reconciliar princípios aparentemente excludentes:

          http://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/3250289/jewish/Is-Judaism-Socialist-or-Capitalist.htm

          Outra leitura para nossos momentos de reflexão.

          Forte abraço – Charles

    • 17 de junho de 2016 para 00:58
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      “Não vamos nos esquecer que em termos pragmáticos quem efetivamente conseguiu diminuir a pobreza, distribuir a riqueza e combater a injustiça foi sempre um sistema de direita. Desde o final da escravidão na Inglaterra (que impôs a liberdade aos escravos do Brasil, fora outras parte do mundo),”

      Os abolicionistas eram liberais, Raul, não de direita. Alás, até que emergiram os trabalhistas e socialistas, eram eles a esquerda.

  4. 16 de junho de 2016 para 12:37
    Resposta

    Não vou entrar no mérito do texto, pois – pelo menos aqui no Brasil – todos os partidos ‘de esquerda’ tem viés antissionista (no sentido de considerar Israel um estado ilegítimo, e por negar o direito de auto determinação do povo judeu são antissemitas por definição).

    O que me incomodou no seu texto foi sua definição de esquerda e direita, vinculando a “maior ou menor sensibilidade em relação a temas de justiça social”.

    O que muda entra a direita e a esquerda é a forma com que cada um acha que irá resolver os problemas de injustiça social. A “direita” não quer “injustiça social”, o que a direita propõe é uma forma diferente de resolver esta injustiça do que a esquerda.

    Obrigado
    Dov

    • Raul Gottlieb
      16 de junho de 2016 para 15:02
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      Caro Dov,

      Veja que o Bernardo não considera que a esquerda pensa que quem tem maior sensibilidade social é de esquerda. Ele diz que é uma esquerda específica (ou seja, uma esquerda entre aspas) que pensa assim e ele discorda desta classificação.

      A meu ver, o problema com a colocação dele é que toda esquerda se comporta dentro da linha que ele descreve ser o pensamento da esquerda com aspas.

      Estas aspas não existem! Cada vez que um regime de esquerda dá errado (ou seja, 100% das vezes que um regime de esquerda toma o poder e tenta acabar com o capitalismo) os pensadores advogam que aquela era apenas a “esquerda”, mas que a esquerda real é maravilhosa.

      E sim, é claro que pessoas com sensibilidade social existem em todo o espectro político.

      Abraço,
      Raul

      • 16 de junho de 2016 para 23:49
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        Tem razão! E por concordar com sua leitura, ignorei as aspas 😉

  5. 16 de junho de 2016 para 18:43
    Resposta

    Caros/caras,
    Reconheço minha incapacidade de escrever em tempos de redes sociais. Fui formado na escola de argumentos elaborados, e fundamentação histórica com referência a autores. Mesmo assim vou tentar me a referir alguns pontos, com os quais discordo mais frontalmente:
    1) Afirmar que os governos de esquerda fracassaram é uma afirmação que vai contra todo nosso conhecimento histórico, tanto da Europa como dos Estados Unidos. Certos governos de direita, como o do Bismarck, de fato avançaram reformas sociais, mas as grandes transformações sociais do século XIX e XX, como limitação do horário de trabalho, saúde pública, direito a férias, legislação trabalhista, para dar alguns exemplos, foram produtos de lutas sociais de grupos e partidos de esquerda. Certamente ninguém quer injustiça social, a questão é quem está disposto a fazer e a fazer o que.
    2) Dizer que os governos de esquerda fracassaram é uma afirmação esquisita. Para dar só um exemplo, A Alemanha e os países escandinavos, produtos de governos socialdemocratas e/ou democrata-cristãos que absorveram bandeiras da esquerda, são um exemplo de fracasso? E os Estados Unidos de hoje é produto do New Deal que a direita considerava comunista?.
    3) A referência a Torá e o judaísmo. Raul aparentemente se refere a certa intepretação ortodoxa que inclui a tora se ve al pe. Making a long story short: 1) minha visão de justiça é influenciada, mas não se reduz, nem aceita como princípio de autoridade a menção da Tora ou do “judaísmo”. Seria um anacronismo achar que a Torá tem respostas para problemas sociedades complexas como as nossas (de fato a referência bíblica tem como base sociedades agrarias), além de ser anterior (e possuir elementos que se contrapõem) a valores contemporâneos, como democracia ou direitos humanos. Sobre a relação entre judaísmo e humanismo, deveria explicitar o que se entende por humanismo. Certamente não é o judaísmo humanista o praticado por grupos de colonos dos territórios em relação aos árabes. Por favor leia Torat Hamelech , que para muitos deles é considerado o guia para suas ações, e que certamente se fundamenta numa leitura possível da tradição judaica. Depois de ler me confirme que se pensa que todo judaísmo é humanista: http://torathamelech.blogspot.com.br/

  6. 17 de junho de 2016 para 01:07
    Resposta

    O antissemitismo está na esquerda desde os socialistas utópicos, Charles Fourier, que chamava os judeus de “incarnação do comércio: parasitas, pilantras, traidores e sangue-sugas”, e Pierre-Joseph Proudhon, seu pupilo, que se referia a eles como “incarnação do capitalismo financeiro” e apropriadores por natureza. É patente que é essa a retórica herdada pelo nacional socialismo, que não é de direita (nem de esquerda).

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