A invenção da “Invenção do Povo Judeu”, por Shlomo Sand

A invenção da “Invenção do Povo Judeu”, por Shlomo Sand

A invenção da “Invenção do Povo Judeu”, por Shlomo Sand

Todo povo é, de certa forma, uma invenção. “L’Italia è fatta. Restano da fare gli italiani” (Fizemos a Itália, nos falta fazermos os italianos) , já teria dito o Marquês d’Azeglio, Primeiro-Ministro da Sardenha na época da unificação da Itália. A tese de que a modernidade é gênese da ideia de nação é talvez uma das poucas ideias que pareça autoevidentes para historiadores e cientistas sociais. Então por qual motivo o livro “A Invenção do Povo Judeu” de Shlomo Sand foi tão polêmico na época de sua publicação? E mais, se a obra é tão problemática quanto apontam seus críticos, por qual motivo ainda é lida e citada?

Lançado originalmente com o título em hebraico “Matai ve’ech humtza ha’am hayehudi? – “Quando e como o povo judeu foi inventado? ”, o título do livro fora de Israel foi traduzido de maneira a ser mais polêmico, “Comment le peuple juif a eté inventé?” e finalmente, “The Invention of the Jewish People[1].

Segundo Sand, o que conhecemos povo judeu nada mais é do que o produto de certas elites intelectuais judaicas que distorceram a história para inventar um fictício “povo judeu”. Nesse sentido, só existem “comunidades judaicas” que segundo Sand, sequer tinham qualquer ligação com o povo judeu que foi exilado pelos romanos (exílio que segundo Sand, também não existiu). Tais comunidades modernas seriam majoritariamente descendentes dos khazares, uma politeia que existiu por três séculos (entre 645-1048) na atual região da Criméia, cujo rei se converteu ao Judaísmo e com isso, forçou a conversão de todo o povo.

A obra é profundamente avessa ao debate. Para Sand, a tese dos khazares foi “ocultada”por intelectuais sionistas por deslegitimar o sionismo, não existe a possibilidade de tal tese ter sido longamente debatida e desabonada por falta de provas. O exílio em 70 E.C com certeza não ocorreu segundo Sand, e isto não é somente a tese de uma das diversas tendências acadêmicas de análise de crítica textual e histórica das Escrituras, é a verdade e isto é ocultado do grande público por razões espúrias.

A primeira questão que se deve perguntar é: como entender a ideia de “invenção” de um povo? De acordo com Sand, a falta de provas como a falta de um “denominador secular etnográfico comum” entre os judeus da Ásia, Europa e África mostra que os judeus não se percebiam como nação antes do advento do Sionismo. Dificilmente um denominador secular seria possível na Europa Central do XV e mesmo com esta contradição flagrante, o argumento não se sustenta. Shlomo Sand descarta as práticas religiosas, então a liturgia e rituais como a leitura comunitária da Torá e os seriam apenas “religião” – em uma época em que crenças religiosas, poder secular e status social não eram categorias separadas. As estruturas de auto-governo nas comunidades judaicas, como os sistemas de caridade e as dinâmicas de negociação com os poderes locais sequer aparecem no livro[2].

As múltiplas tensões e dilemas entre o exílio judaico e as aspirações para o retorno à Terra de Israel, na narrativa de Sand, apenas artifícios retóricos ou literários. Segundo Sand, as súplicas para o reestabelecimento de Jerusalém e de Sião não indicativos da realidade e os judeus nunca estiveram totalmente separados das sociedades em que viviam. Ignorando contingências e contextos históricos e com alguns exageros, esta afirmação parece correta. Um pequeno exercício de pesquisa nas fontes históricas nos mostra uma paisagem diferente.

Em meados do século XVIII, dois homens públicos da Prússia, Johann David Michaelis e Christian Wihelm von Dohm, discutiam a possibilidade de integração dos judeus à sociedade. Dohm propunha uma série de medidas: educação compulsória para os membros “da nação judaica”, liberdade de ofício, proibição da “língua judaica” (ídiche) como língua de negócios ou de documentos jurídicos e ao que Michaelis responde “(...) Heer Dohm parece não levar em consideração, o que levanta dúvidas sobre a total lealdade dos judeus ao estado e a possibilidade de sua integração, a expectativa deles [dos judeus] de um retorno à Palestina”[3]. Poucos anos após, em 1791, na sessão da Assembléia National da França que garantiu cidadania aos judeus, Stanislas de Clermont-Tonerre diria: “Aos judeus como nação devemos negar tudo e tudo garantir aos judeus como indivíduos”.

Tais eventos não são apenas anedotas, são evidências das tensões entre os judeus e o estabelecimento do Estado-Nação. De fato, se existe algo que podemos considerar como uma “excepcionalidade” judaica ou algo intrínseco ao povo judeu é como sua existência antes do Estado moderno é o fato de trazer consigo os conceitos de “povo, religião e cultura” antes que estes existissem como categorias separadas. As comunidades judaicas se viam como “klal Yisrael” – “o todo de Israel” - , trocavam missivas entre lideranças comunitárias e os rabinos – que não eram apenas líderes religiosos, mas professores, juízes e mediadores de conflitos -  se engajavam em debates sobre aplicação e interpretação da Lei Judaica. A “judaicidade” não era somente um tema privado, mas o princípio regulador da vida pública para dentro e para fora da comunidade. Ignorar tal evidência de que havia um denominador comum compartilhado, isto porque dificilmente é possível mostrar as diversas evidências em um só texto, é uma perversão do estudo da história[4].

O autor, ao se aproximar da conclusão do livro, se coloca contra as pesquisas genéticas que são conduzidas para tentar encontrar algum “gene judaico”. Sua conclusão: não existe um gene judaico – e o ato de pesquisar estes genes somente pode ser racismo -, mas os judeus que vivem em Israel partilham genes com a população palestina, logo os palestinos atuais são descendentes dos judeus. Portanto, tais palestinos é quem tem direito à Terra de Israel.

A lógica circular do argumento esbarra no fato de que as pesquisas genéticas aparentemente só têm algum valor para o autor quando referendam sua própria tese. As implicações lógicas do argumento de Sand são claras: o pensamento sionista, não satisfeito em inventar uma história exclusivista de um “povo judeu”, tenta agora vender a ideia de que os judeus são tão diferentes que até mesmo seus genes mostram isso. Porém, no caso de mostrar que os palestinos supostamente seriam judeus convertidos ao Islã durante a expansão dos reinos islâmicos, a pesquisa genética é perfeitamente válida.

O problema é que nenhum dos marcadores para o ingresso na coletividade judaica pede um teste de DNA. Os meios de ser considerado ou tornar-se judeu são produtos de historicidades e até hoje em dia, no Estado de Israel, o debate de “Quem é Judeu” ainda persiste: os princípios são a Lei do Retorno para o Estado de Israel (Judeus da Diáspora, mesmo convertidos, alguém com um avó ou avô judeus, seus conjuges[5]) ou as conversões religiosas autorizadas e as regras prescritas na halachá (o conjunto de leis judaicas), para as autoridades religiosas.  Trazer o debate da genética como se fosse central é inventar uma questão inexistente. Porém no livro tal capítulo é a catarse que prova as tendências implícitas do “racismo exclusivista sionista”.

O debate entre religião e nação no caso judaico provavelmente jamais vai ser concluído e de fato, se comparado com os debates sobre laicidade na cultura republicana, tal discussão parece quase que pré-moderna. Em termos históricos da experiência judaica, ora veremos momentos de grande abertura e confluência de ideias e experiências históricas, ora veremos momentos de introspecção e retorno a estruturas tradicionais. As condições formativas das múltiplas identidades judaicas e seus processos ainda estão abertas, no moderno Estado de Israel e mais ainda na Diáspora judaica.

Nesse sentido, são diversas as invenções do povo judeu em suas múltiplas categorias disputadas. O sionismo é uma das expressões que imaginou o povo como uma construção nacional. Outras imaginações históricas viram este mesmo povo como uma classe, no caso dos socialistas do Bund. Ou mesmo como Sand acredita que seja, apenas como uma religião, que foi o caso de certas tendências da Reforma judaica alemã do início do século XIX. O que se espera do historiador é identificar tais debates de acordo com seus contextos, seus silêncios e que diálogos eles vieram a produzir (ou se não produziram). A imaginação histórica não é um ardil, é uma necessidade para dar forma a algo que não é dado ou autoevidente. Shlomo Sand opta por transmitir tais atos como ardilosos ou falsificações da verdade, se posicionando muito próximo de versões conspiratórias da história[6].

As múltiplas evidências de tais atos de imaginação estão espalhadas por diversos momentos da história judaica, desde os poemas litúrgicos, passando pelos debates rabínicos sobre quais mitzvot (“mandamentos”) só eram possíveis de realizar em na Terra de Israel até os debates modernos sobre qual seria a língua do povo ou se seria possível construir um lar nacional fora da Palestina/Terra de Israel[7].

Tais atos são os componentes mais básicos de qualquer estrutura social complexa: imaginam-se as fronteiras de um bairro, imaginou-se o que é a “Europa” assim como em algum momento, o Brasil imaginado por Varnhargen e outros pensadores do século XIX acabou sendo adotado como uma metanarrativa que até hoje perdura no imaginário nacional: um país pacífico, que se manteve íntegro no processo de independência, conduzido por heróis como Nassau, D. Pedro I e outros. Muitos destes mitos foram desmontados e continuam sendo diariamente sem recorrer a teorias conspiratórias ou ignorar evidências.

Shlomo Sand, ao meu ver, tenta empreender o ideal renascentista de escrever o último livro, ou de produzir o último livro que será lido. Não é um livro historiográfico, mas um livro político com notas de rodapé. Os outros dois livros que o autor escreveu após como forma de prolongar o debate, igualmente. Tais livros tem como missão reforçar a ideia de um Israel “ilegítimo”, tão ilegítimo que 80% de sua população justifica sua presença naquele território através de mentiras e os 20% de árabes-israelenses são cativos de um delírio coletivo. A acusação de racismo sendo perpetrado por um país que fala em nome de um grupo de vítimas da barbárie nazista, por um autor que se apresenta como nascido em um campo de refugiados da Segunda Guerra ganha, aos olhos de muitos dos leitores, ares de verdade incontestável.

Shlomo Sand não ao menos não acredita que o livro vai desmantelar o Estado de Israel. A utopia é de mostrar que o conflito Israel-Palestina se baseia em algo imaginário e que então se foi possível facilmente “inventar” um passado baseado em premissas racistas e exclusivistas, podemos imaginar um futuro binacional entre israelenses e palestinos. De fato, tendências racistas existem em certos setores da sociedade israelense, são muito preocupantes e devem ser combatidas. Ideias de que o conflito entre Israel e os palestinos derivam de ordens teológicas ou de uma noção de que os palestinos possuem alguma lógica intrínseca e natural de violência são igualmente repreensíveis. Tanto quanto são inaceitáveis as ideias de que o lado israelense é moral por natureza. O debate que se trava é sobre condições e questões históricas e políticas. Porém, acredito que falsear  e esconder evidências não seja uma maneira boa ou legítima de lidar com estas questões.

 

 

[1] SAND, Shlomo. The Invention of the Jewish People. Nova Iorque, Verso, 2009.

[2]SHAPIRA, Anita. The Jewish People Deniers. Disponível em: http://www.isracampus.org.il/Extra%20Files/Anita%20Shapira%20-%20Shlomo%20Sand%20book%20review.pdf

[3] MENDES-FLOHR, Paul, REINHARZ, Yehuda. The Jew in the Modern World. Londres, Oxford University Press, 2009.

[4] BATNITZKY, Leora. How Judaism Became a Religion. Princeton, Princeton University Press, 2011.

[5] Texto da lei: https://www.knesset.gov.il/laws/special/eng/return.htm

[6]NIRENBERG, David. Anti-Zionist Demography. Disponível em: https://www.academia.edu/1862743/Anti-Zionist_Demography?auto=download

[7] SAPOSNIK, Arieh. Review of ‘The Invention of the Jewish People’ by Shlomo Sand. The English Historical Review. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/pdf/40963158.pdf

 

leonel

2 Comentários

  1. SERGIO GOLDBAUM
    10 de agosto de 2016 para 19:32
    Resposta

    muito bom.

  2. David Bessler
    11 de agosto de 2016 para 09:40
    Resposta

    Excelente. É o “simples mas errado” sendo confrontado pelo “complexo mas correto”, como diz um meme famoso de internet 🙂

Deixe um Comentário

Close
Free WordPress Themes, Free Android Games